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Renato Borghetti


Um surpreende músico do Sul 

Renato Borguetti é um músico surpreendente. Quando ele começa o show com sua gaita ponto o público que não conhece direito seu trabalho não espera ouvir sons tão bonitos. Ele sempre consegue surpreender, e é muito ajudado por sua banda, onde sempre estão presentes grandes músicos. 

A entrevista com Borguetti aconteceu durante o 7º Brasil Instrumental em Tatuí, interior de São Paulo, depois de realizar um workshop lotado de estudantes e curiosos. Neste mesmo dia, houve um show muito intenso com a banda formada por Daniel Sá (violão), Vitor Peixoto (piano) e Pedro Figueiredo (sax e flauta). Confiram abaixo, os principais trechos da entrevista. 

Mariana Sayad  

Entrevista com Renato Borghetti 

Por Mariana Sayad 

Nome Completo: Renato Becker Borghetti
Data de Nascimento: 23/07/1963
Local: Porto Alegre
Reside em Porto Alegre. 

Vozes da Música Instrumental - Fale sobre a sua formação musical. 

Renato Borguetti - Como a maioria dos acordionistas, que lá no sul nós chamamos de gaiteiros de gaita diatônica, aprendem pela forma oral. Normalmente, é a avô que ensina ao pai, que passa ao filho. No meu caso, não foi assim, porque não tenho músicos na família. Eu aprendi escutando, autodidata. Normalmente, quem toca acordeom e diatônico, que é este que toco, é porque aprendeu com a família. Esse é a principal forma de transmissão do conhecimento da gaita diatônica. Não só no Sul, mas no Brasil e tem até um estudo dos portugueses na Europa. 

VMI - Fale sobre suas principais influências. 

RB - A principal, sem dúvida alguma, é o folclore gaúcho, que foi onde eu me criei. A minha manifestação é através do folclore da minha terra e muito de música argentina e uruguaia. Como é fronteira com o Brasil, são muito próximas e, por isso, desde pequeno eu escuto muita música de lá. É claro, que muito de música popular brasileira também. Eu não fugi da época do country e do rock, mas muito pouco. 

VMI - Como foi seu começo de carreira no Rio Grande do Sul?  

RB - Lá no Rio Grande do Sul existe o Movimento Tradicionalista Gaúcho, para preservação da cultura, das manifestações, da história e isso é baseado no CTG, Centro de Tradição Gaúcha. É uma espécie de clube, onde as pessoas se reúnem para manter a tradição, onde tem grupos de dança, de música, biblioteca e fazem encontros festivos ou culturais. Existem muitos CTGs no Rio Grande do Sul, fora do Estado e até fora do país, que são formados por gaúchos. Eu me criei dentro de um desses, chamado CTG 35, que é em Porto Alegre. Quando eu era criança, participava de um grupo de dança, depois como músico. 

VMI - Quais festivais você participou no começo de sua carreira? Existiu algum mais importante? 

RB - Eu acredito que o principal sempre será o primeiro, até porque o meu primeiro foi fora da canção nativa, que é feito em Uruguaiana, é o maior festival do Rio Grande Sul ainda hoje. Não tem mais a mesma dimensão e a força que tinha, mas sempre foi o maior festival do Rio Grande do Sul. Eu toquei em 1989, eu tinha 28 anos.

VMI - Como foi a gravação de seu primeiro disco lançado pela RBS Discos? Qual foi a repercussão disso? 

RB - Em 1983, eu resolvi registrar um trabalho em disco. Fiz todo independente com músicos amigos, é uma produção muito simples com a gaita, violão e contrabaixo. A arte capa e da contracapa eu paguei com um jipe antigo, que eu tinha, e dei ao fotógrafo. Foi uma coisa bem batalhada, e coincidiu com o lançamento de um selo no Rio Grande do Sul, que era vinculado com a RBS TV, chamado RBS discos, que fazia uma divulgação muito boa na televisão. Então, eu na época, optei pela distribuição através da gravadora. 

VMI - Como foi sua participação do Festival da Sanfona do Maranhão? 

RB - Foi legal. Essa relação com os músicos nordestinos eu tenho já há muito tempo. No meu segundo disco, em 1985, eu já contei com a participação do Sivuca. Neste período também, Luiz Gonzaga ainda era vivo e me convidou para fazer uma participação no disco dele no Rio de Janeiro. Em seguida, eu saí para viajar com o Dominguinhos, Oswaldinho, Sivuca fazendo uma série chamada “Encontro Sanfônico”, então era muito legal. Durante muito tempo, nós tínhamos shows e espetáculos com esse mote de juntar gaiteiros do Sul, Norte, Nordeste e Centro. Então, a sanfoneada sempre foi muito ligada. Quase que uma vez por mês tinha um show em que um tocava e se encontrava. Isso era muito legal. Eu conheci muito o Brasil num projeto nordestino e não num gaúcho, que foi feito pelo Dominguinhos, chamado “Projeto Asa Branca”, que eu conheci o interior do país através dele. 

VMI - Em sua opinião, a música instrumental realizada fora do eixo Rio-São Paulo precisa de mais divulgação? Por que acontece esse tipo de diferença? 

RB - A música instrumental naturalmente é menos popular. Não podemos exigir que ela tenha a mesma penetração que uma música cantada. Se você perguntar na rua, por exemplo, para dez pessoas cantarolarem qualquer trecho de uma música instrumental, nove não saberão. Em contrapartida, se pedir para cantar alguma canção, todos saberão. Isso é cultural e não é só no Brasil, é no mundo inteiro. Eu acho que o que facilita um pouquinho a música instrumental é a facilidade que a informação chega hoje. Nós temos o computador, a própria imprensa faz uma coisa se é um lance legal. Antigamente, não era assim. Era necessário ir ao eixo Rio-São Paulo porque de lá a coisa reverberava. Hoje, já não é o caso, dá para se gravar discos fora deste eixo, algo que não se conseguia antes. Eu acho que a tecnologia neste sentido facilitou muito. 

VMI - Você já sofreu algum tipo de preconceito por tocar gaita ponto?  

RB - O acordeom não é um instrumento que a juventude ache interessante, mas daí a dizer que houve algum preconceito... Acho que não. Eu acho que talvez um desconhecimento. Eu sempre digo que o instrumento não tem culpa de nada. Qualquer instrumento pode ser bom ou ruim, só depende do que vai se tocar nele. Então, eu acho que uma caixinha de fósforo bem tocada é maravilhosa. Assim como eu acho que pode ter uma guitarra, que os roqueiros adoram, se colocar na mão de quem não sabe tocar, não sai nada. Então, eu acho que a música é o mais importante, pois o instrumento não tem culpa de nada. 

VMI - Como foi seu trabalho realizado com a OSPA (Orquestra Sinfônica de Porto Alegre)? 

RB - Eu faço periodicamente alguns trabalhos com esta orquestra. Eu fiz com outras no Brasil. Eu gosto muito deste trabalho com orquestra. Eu acho que, primeiro, soa bem e fica uma coisa interessante. Aquela coisa da rigidez de uma orquestra. Eu acho interessante, como eu não leio, eu tenho que estar muito mais ligado. Eu acho isso um desafio e aprendi muito ao tocar com orquestra. No início, talvez, eu tive alguma dificuldade, hoje já é um trabalho que gosto de fazer e, normalmente, são shows acústicos, então, dá para trabalhar bem essas dinâmicas. Eu gosto muito. 

VMI - Como foi a gravação do CD Gaitapontocom? Quem participou? 

RB - Quando é para ser despretensioso é que dá certo, não é? Eu tinha feito um contrato de dois discos com uma gravadora, chamada Atração, eu fiz um com orquestra. E o segundo disco, que eu fiquei devendo para eles, sempre aparecia a oportunidade de gravar com outra gravadora e pedia para a Atração me liberar e eles sempre me liberavam e eu sempre ficava de gravar o que faltava. Até que um dia eles me cobraram e eu nem tinha repertório pronto, então, entrei no estúdio para fazer um ligeiro mesmo. Nós fizemos com as músicas que tocávamos no palco e em uma semana o disco ficou pronto. Acabou que foi indicado ao Grammy Latino. É super engraçado, porque nós não pensamos nos arranjos, pois eram que estávamos tocando no palco, que foram passados para o disco, então, foi muito simples de fazer e foi o que deu a indicação. E só participou a banda. 

VMI - E de seu primeiro DVD? 

RB - Foi um show gravado ao vivo no Teatro São Pedro, lá em Porto Alegre, com um quarteto, mas em vez do piano, com violão, que foi o Hilton Vaccari que fez. Daniel Sá na guitarra acústica e o Pedro Figueiredo nos sopros. É um show que já estávamos fazendo, foi registrado também em CD. Nós já estamos com o segundo DVD pronto só com músicas inéditas também, pela nossa música ser regional rural, nós levamos o campo para dentro do estúdio. Desta vez, nós fizemos o caminho inverso, nós levamos para o campo o estúdio. Nós levamos todo o equipamento, a parte de áudio e vídeo, e ficamos 15 dias no galpão da casa e ali nós gravamos tudo. 

VMI - O que você achada da nova geração de músicos? 

RB - Eu posso falar bem do meu instrumento. Quando eu comecei a tocar, muito pouca gente tocava acordeom diatônico. Hoje, tem uma safra de gaiteiros bons e todos jovens. Além de gente nova no violão e na guitarra. O que noto é que antigamente quem tocava era muito mais autoditada. Hoje, a gurizada está mais em busca do conhecimento e do estudo. Então, os grupos novos, o pessoal de música regional lá do RS, vêm estudando bastante. Então, eu acho que o futuro da música brasileira está bem garantido. 

VMI - Para você qual é o futuro da música instrumental no Brasil? 

RB - Os músicos brasileiros são referências mundiais. Eu acho que esta fonte não seca nunca, pois acredito que o Brasil tem muita riqueza regional, que a base maior do país. Eu acho que esta fonte é inesgotável e o futuro está garantido. Tem renovação e tem onde buscar o mote para que saia a boa música. Isso é certo que vai se manter e com certeza até melhorar. 

Obrigada Borghetti!