Cyro Pereira | Cyro Pereira |
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Um dos maiores maestros da nossa música Cyro Pereira é uma das maiores referências musicais do Brasil. Ele foi regente da Orquestra Jazz Sinfônica do Estado de São Paulo, que tem seu repertório todo voltado para a execução de música popular, hoje Cyro é compositor residente da orquestra, que atualmente, é a única deste gênero no Brasil. Ele já foi professor do departamento de música na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). A entrevista foi realizada no Teatro Caetano de Campos em São Paulo no dia 22 de novembro de 2004. E aqui, ela está bem curta, pois a grande maioria ficou guardada para o livro “Vozes da Música Instrumental”. Aliás, é necessário fazer um grande agradecimento para Andréa Lucato, que na época era a assessora de imprensa da orquestra e foi quem viabilizou a entrevista. Mariana Sayad Entrevista com Cyro Pereira Entrevista realizada por Mariana Sayad e João Marcondes Nome completo: Na realidade o meu nome não é Cyro. O meu pai era português e na hora de registrar, o escrivão entendeu errado e escreveu Cyrio . Só que na minha casa nunca ninguém me chamou de Cyrio . Eu só fui descobrir o meu nome quando eu fui para escola, que eu tive que levar a certidão de nascimento. Mas o meu nome completo é Cyrio Marim Pereira. A minha mãe é italiana e o meu pai é português. Por isso que saiu essa coisa aqui (risos). Vozes da Música Instrumental - Fale um pouco sobre a sua formação musical. Cyro Pereira - Eu estudei numa escola lá em Rio Grande, que se chamava Colégio Liceu Salesiano Leão XIII de Artes e Ofícios. Eu acho que esse tipo de escola não existe mais. Nós tínhamos o curso primário e saíamos de lá sabendo tudo. Inclusive no terceiro ano, estudávamos francês. Nesse colégio, se aprendia um ofício: tipografia, alfaiataria, marcenaria, mecânica, teatro, canto coral ou piano. Eu comecei a estudar lá. É o tipo de escola que hoje é um sonho, tenho a impressão, que no mundo inteiro. VMI - Fale sobre as suas principais influências. CP - Eu sempre gostei de rádio desde minha juventude. Eu ouvia muito a Rádio Nacional, que era a única estação do país, em que se ouvia em qualquer Estado. Eu sempre gostei de música e essa coisa toda. Começou por aí. Depois, eu vim para São Paulo e fui trabalhar na Rádio Record como pianista. Eu conheci um grande músico, que se chamava Gabriel Migliori . Ele era um maestro e um excelente pianista. Ninguém lembra dele. A música do “Cangaceiro” é dele. O “Pagador de Promessa” a música é dele, que ganhou prêmio em Los Angeles. Eu estudei com ele. Eu aprendi um monte de coisas. Eu nunca vou chegar perto dele, mas aprendi muito. VMI - Qual é a importância da música erudita em sua formação? CP - Eu gosto muito de música erudita, mas sempre gostei mais de música popular. Esse negócio de erudito é meio gozado porque o Beethoven escrevia minuetos, que era uma música popular em que todo mundo dançava. E grandes sinfonistas escreveram grandes minuetos. E me parece que música é música. Depois houve essa separação que eu não concordo. Eu acho que existe música boa e música... Não é que seja ruim, não é boa. Não é que eu não gosto de música erudita, gosto. Sempre ouvi. Mas eu sempre gostei de música popular. VMI - O senhor estudou regência? CP - Não. E fico muito chateado quando as pessoas me chamam de maestro. Eu faço um trocadilho, que em italiano nona é a avó. Então, quando eles me chamam de maestro, eu falo "Maestro, é a nona de Beethoven". VMI - Como funciona seu processo de criação, tanto composicional , quanto para arranjos? CP - Isso aí é difícil de explicar, sabe? O arranjo é um negócio que você começa e vai digerindo, vamos dizer assim. E compor também eu não sei como explicar. Seria como perguntar a um escritor, como ele escreve um livro. A história que nasceu na cabeça dele. Não sei como explicar isso. Musicalmente, eu não sei explicar. Esse negócio de inspiração é aquela vontade de fazer alguma coisa. Eu não sei explicar isso. VMI - Qual é a influência de Ernesto Nazareth em sua formação? CP - Eu o conheço desde garoto de ouvir no rádio. Acho que foi um dos marcos da história da música brasileira. Um cara que deu a cara para o que fazíamos. Eu não o conheci. Mas o Almirante o conheceu e muita coisa eu aprendi com ele. Ele era um grande pianista. A obra dele realmente é genial e tem cheiro de Brasil. O que me parece que nós perdemos agora. VMI - O que senhor acha da nova geração de músicos? CP - Tem uma geração muito boa, que estuda. Por exemplo, em Tatuí tem um conservatório famoso, em que grandes músicos que estão conosco saíram de lá. Eu acho que se a pessoa quiser estudar hoje música seriamente, tem onde. Isso é maravilhoso. VMI - Para o senhor, qual é o futuro da música instrumental no Brasil? CP - Com a exceção das orquestras sinfônicas, está cada vez mais difícil. Porque não tem onde tocar, ninguém tem onde tocar. A não ser essas coisas de tocar em barzinho. Com todo o respeito, mas só para sobreviver. Em São Paulo, nós temos duas orquestras: do Teatro Municipal e a Osesp . E a nossa. E tem também na ULM, a Sinfônica Juvenil, que é regida pelo nosso maestro João Maurício Galindo , que começa a formar essa geração. Tem a Banda Juvenil Sinfônica da Mônica Jardim. Então, me parece que temos um caminho a seguir. Isso tudo é música oficial, fora disso, ninguém quer investir. É preferível ligar a televisão e ver aquelas coisas, que você sabe, eu prefiro não falar. Cyro, muito obrigada! |