Home arrow Rogério Botter Maio
Rogério Botter Maio


Um propagador da música instrumental

Rogério Botter Maio é um dos grandes baixistas brasileiros. Ele começou a se interessar pelos sons graves desde cedo e, apesar de não ser filho de músicos, sempre teve muita música em sua casa. Botter Maio estudou música erudita em Graz e lançou seu primeiro disco solo em 1996 em Nova York. Atualmente, ele tem dois CDs solos e está já planejando o terceiro. Além de baixista, Rogério é compositor, arranjador e produtor.

A entrevista com ele aconteceu durante à tarde de uma quinta-feira de 2004 e durou um pouco mais que uma hora. A nossa conversa foi em sua casa mesmo, ainda bem, pois no dia da entrevista ele estava de com o pé engessado. Então, agora deixo vocês com Rogério Botter Maio.

 

Mariana Sayad

Entrevista com Rogério Botter Maio

Por Mariana Sayad e João Marcondes
Dia 08/07/2004
Entrevista realizada na casa do Rogério em São Paulo.
Nome completo: Rogério Botter Maio
Data de nascimento: 09 de setembro de 1965
Local de nascimento: Assis, SP.

VMI – Você está a quanto tempo na cidade de São Paulo?

Rogério Botter Maio- Em Assis mesmo eu nunca morei. Eu saí de lá com cinco meses de idade. Morei em São Paulo antes de sair do Brasil e quando voltei em 98. Antes de viajar, eu morava em Campinas e comecei a vir pra São Paulo para trabalhos.

VMI – Fale sobre sua formação musical

Rogério - A minha família sempre foi musical, apesar de meus pais não serem músicos. Acho que a minha primeira formação musical foi a convivência com meus irmãos, que somos em seis e eu sou o quinto. A música na época era bem melhor do que a de hoje.

Com uns 17 anos, entrei numa faculdade de agronomia. Cursei por seis meses e saí depois de perceber que estava longe da música. Resolvi estudar música. Eu já tocava com o meu irmão mais velho, o Ricardo, numa banda de rock progressivo. Desde 81, eu já estava tocando. Em 83, comecei a estudar seriamente. Entrei na Unicamp no começo de 1984 e fiquei até metade de 1987 quando fui para o exterior. Fiz prova para uma escola de jazz na Áustria, na cidade chamada Graz, onde fiquei por dois anos. Ainda estudei um semestre de 1991 na Berklee, pois ganhei uma bolsa de estudos. Na seqüência, foram estudos menos formais e mais da vida mesmo.

VMI – Fale sobre suas principais influências

Rogério - A primeira foi aquele disco maravilhoso do Chico Buarque, que me marcou muito: Construção. Acho que é de 1971. Beatles foi uma grande influência no começo. Já na adolescência, uma grande influência foi o rock progressivo na década de 70, pois na de 80 eu já estava em outra praia. O Yes foi um grupo que adorei na época. Por incrível que pareça, neste período, eu não era muito ligado à música brasileira. Ela foi muito forte quando eu estava no exterior. Já gostava antes de sair, de Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti e Pau Brasil. Essas pessoas sempre foram referências. Outros artistas, eu fui gostar bem mais tarde. A partir de 1987, quando eu já estava fora do Brasil, conheci mais afundo o trabalho do Dorival Caymmi, Edu Lobo e Ivan Lins. Chico Buarque é para mim uma super referência, como poeta e compositor. Hoje, eu acho o Guiga incrível. O Brasil é uma coisa impressionante a quantidade de músicos excelentes.

VMI – No seu instrumento, algumas pessoas em específico?

Rogério - No Brasil, eu sempre gostei muito do Zeca Assumpção desde do trabalho dele com o Egberto Gismonti. Aliás, como baixista acústico, ele sempre é que eu mais ouvi. O Nico Assumpção era um cara que eu admirava mais. Fora do Brasil, do Scott LaFaro, que é um baixista que tocava com o trio do Bill Evans. Maravilhosa a forma mais aberta dele tocar, com tudo mais solto. Não era uma função de mero acompanhamento, se bem que isso já é um grande barato do nosso instrumento. Ray Brown, como referência de jazz e do swing, é uma referência e tanto. Pela precisão e pelo ritmo é muito impressionante. Eu gosto muito daquele baixista francês, o Renaud Garcia Fontes. De baixo elétrico, um cara, que eu gosto muito é o Anthony Jackson. O groove, a precisão e o corpo do som dele são maravilhosos. Aliás, falando em corpo do som, o Luizão Maia é uma coisa divina, que realmente revolucionou a levada de baixo elétrico no Brasil. Talvez, eu esteja esquecendo pessoas importantes...

VMI – Como chegou ao seu instrumento?

Rogério - Acho que desde aquela fase, que tinha saraus em casa, eu já me interessava pelos sons graves. Nós tocávamos piano a seis mãos e eu sempre ficava com a parte grave do piano. Tirava as linhas do Paul McCartney. Eu já fazia a linha do baixo dele no piano. Foi o instrumento que me cativou. Outra coisa que me chamou atenção é que eu sou virginiano, um signo voltado para terra. Eu tenho muita coisa de terra no meu mapa astral. E o baixo é o alicerce da harmonia. Na música tudo é construído de baixo para cima. É uma coisa de suporte.

Com uns 16 anos, eu fui tocar com meu irmão no grupo dele. Na seqüência, vieram os trabalhos ainda em Campinas na noite com cantores e cantoras, não muito com a música instrumental. Seguindo, fui para São Paulo tocando com uns 17 anos. Isso foi uma super escola. Depois, fui pra fora e comecei a ter um trabalho próprio com o meu irmão saxofonista, Rodrigo, que viajou comigo. Foi um trabalho instrumental brasileiro. Tocávamos coisas do Pau Brasil, Hermeto e composições próprias.

VMI – Você já se dedicou a algum outro instrumento com a finalidade de ampliar sua visão na música?

Rogério - Já. Eu estudo Cello, que adoro. Estou começando a tocar com um quarteto. Eu nunca fui ligado ao estudo propriamente dito, as coisas vêem mais intuitivamente. Talvez, por ter mais facilidade. No contrabaixo, eu sempre estudei muito, até porque na Áustria eu ficava oito horas estudando. Eu já tive acordeom, bandolim e cavaquinho, que ainda tenho. Isso é legal. Estudei um pouco de piano erudito na época do colegial e um pouquinho de violão clássico.

VMI – Além de instrumentista, você é arranjador, compositor e produtor.

Existe alguma destas áreas que você mais se identifica?

Rogério - Eu tenho dois CDs autorais. Sinto-me muito bem compondo, é algo importante. É como uma meditação, que me preenche. Eu adoro arranjar eu também adoro e encaro como uma composição. O estado de espírito é o mesmo. Eu fui produtor dos meus dois discos, eu gosto e acho que tenho jeito, como um bom virginiano, eu sou muito meticuloso. Gosto muito de dar aula também. Acho bacana. Eu tive professores legais, que me marcaram bem. Tocar é uma maravilha. Tenho tocado com pessoas maravilhosas: Dom Salvador e Nelson Ayres. Ainda faço trabalhos à noite, quando são legais musicalmente. Viajar e tocar são duas coisas maravilhosas.

Eu também faço um outro tipo de produção, que é do meu próprio trabalho. Ou seja, por enquanto sou eu que estou agitando tudo. É uma coisa mais chata, de todas é a que menos gosto.

VMI – Sobre seu lado de compositor. Como funciona seu processo de criação, sendo um baixista, o processo de composição é diferente?

Rogério - Acho que sim. Eu sou um dos poucos contrabaixistas, que eu conheço, que compõe no piano. É um instrumento harmônico importantíssimo, que qualquer um deve conhecer. Eu não me vejo como um contrabaixista compondo e, sim, como compositor compondo.

VMI – Na época que você estudou na Unicamp, quais orquestras jovens você participou?

Rogério - Eu entrei com 18 anos e tinha a Orquestra Jovem de Campinas, que tinha o maestro Flávio Flourenço, um excelente maestro, que está agora com a Orquestra de Santo André. O contato que tive com a música erudita nessa orquestra foi muito legal. Com as dificuldades técnicas de uma orquestra, incentivava-me a estudar mais técnica e recebia muitas dicas. A primeira peça que eu toquei foi a Sinfonia Inacabada de Schubert, que eu acho super linda.

Na seqüência, comecei a vir mais para São Paulo para a tocar com o Lutero Rodrigues. Ele ainda regia a Sinfônica Jovem do Litoral. Daí teve a Orquestra Sinfônica Jovem Municipal regida por Jamil Maluf e, hoje, ela se chama Orquestra de Repertório. O primeiro trabalho, que fiz foi com o Hermeto Pascoal. No exterior, fiz pouca coisa com orquestras. Só em Boston tive esse contato. Eu nunca almejei fazer carreira em orquestra.

VMI – Quando você foi à Europa?

Rogério - Foi em agosto de 1987.

VMI – Por quê?

Rogério - O Brasil estava com a inflação galopante. Aquilo estava me cansando muito. Eu nem sabia como estava a situação dos músicos na época, mas para mim aquela situação era muito desestimulante. Eu estava com uns 20 anos e tinha um amigo estudando na Áustria, Marcelo Onofre, um grande pianista de Campinas. Quando ele veio pra cá de férias, sugeriu-me essa escola de Jazz. Eu e o meu irmão economizamos uma grana, vendemos alguns instrumentos e fomos. Fizemos a prova, passamos e ficamos dois anos lá.

VMI – Como foi a experiência lá?

Rogério - Foi bem legal. Eu só não gostei muito do tipo de vida que as pessoas levam. Nós saímos daqui num clima tropical e chegamos lá num outono, que é mais frio que o inverno daqui. Mas tudo era novo e era bacana estar pela primeira vez na Europa. Vendo neve pela primeira vez. Musicalmente, foi legal. Eu e meu irmão montamos o “Jazz Via Brasil Group”, que até hoje ele mantém na Suíça. Tocamos bastante por lá.

Eu fiquei quatro anos na Europa. Depois da Áustria, eu fui para Roma onde musicalmente foi meio devagar. Porque lá não tinha muita coisa bacana acontecendo. Aconteceu algo interessante: eu fiz uma audição para fazer parte do filme “Poderoso Chefão III” do Copolla. Fizemos a audição e fomos aceitos. Tivemos uma participação no filme. Ficamos quatro dias gravando para aparecer em dois segundos de cena. Foi uma experiência e tanto. Eu fiquei um pouco menos de um ano em Roma e na seqüência fui pra Paris. Fiquei um ano. Foi mais interessante musicalmente. Eu tive um contato maior com o jazz. Teve um trabalho bem legal com um cantor, chamado Thierry Péala, onde tínhamos um trio. Ele canta uma faixa do meu primeiro CD. Eu trabalhei em Paris com o Ricardo Villas, que foi um dos exilados políticos e culturais dos anos 70. Um compositor também. Rodamos bastante pela França. Trabalhei também com o Zé Luiz Mazziotti, que na época morava lá. O Nenê trabalhava lá na época e chegamos a trabalhar junto. A primeira vez que toquei com o Filó Machado foi lá. Aliás, ele estava tocando piano. Foram trabalhos de noite. Tudo isso me fez crescer, pois eu não tive tanto o trabalho de escola. É mais a vivência. Então, foi da metade de 1987 até a metade de 1989 na Áustria, desta metade até metade de 1990 em Roma e até metade de 1991 em Paris. De lá, fui para os Estados Unidos.

VMI – Como foi nos Estados Unidos?

Rogério - Eu fui meio relutante, porque eu nunca vi a coisa da Berklee com tão bons olhos. Eu sabia que tinha sido uma escola maravilhosa, afinal o Victor Assis Brasil passou por lá, o próprio Nelson Ayres, o Cláudio Roditi. Sempre músicos da pesada e sem contar os americanos, que não vem ao caso agora. Ano após ano, as pessoas que eu ouvia sair de lá não era bem o que eu queria. Mas essa foi a forma de eu entrar no país. Era uma nova fase e o meu visto da França já tinha encerrado e a única forma de entrar nos Estados Unidos era como estudante. O meu contrabaixo quebrou na ida e foi uma baita grana pra consertar e só sobrou dinheiro para um semestre da escola. Aí acabou e não sei como eu consegui ficar mais. Eu fiquei um ano em Boston e em 92, eu fui pra Nova York e fiquei até 1997. Essa foi a fase mais legal fora do Brasil, em termos profissionais. Já em 1992, eu já fui trabalhar com o Paquito d'Rivera, que é um supermúsico cubano que mora lá há muito tempo. Comecei a ter contato com o Dom Salvado, pois eu morava perto da onde ele tocava e vivia dando canja com ele. E muitas coisas legais aconteceram.

Em 1993, apareceu essa gravação com a Jane Duboc e Gerry Mulligan, que é um saxofonista super famoso na história do jazz. Já faleceu há uns anos. Foi um trabalho que não saiu no Brasil ainda, mas muito bonito. Aí teve um trabalho com o Manfredo Fest, que é um pianista bem legal. Em 96, nós gravamos, mas já trabalhávamos juntos antes. Desde 94, comecei a trabalhar sério no meu primeiro trabalho, que saiu em 1996 independente por lá. É muito difícil ter um trabalho lá. Até pela minha idade e circunstâncias, não consegui manter meu trabalho tão em evidência assim. E lá é muita gente boa. Mas isso me fazia estudar mais. A pressão é maior.

Daí, deu cinco anos de Nova York e que não agüentava mais. Estava esperando a dupla cidadania. Fui pra São Francisco. Eu já tinha ido pra Califórnia tocar com o Manfredo Fest num festival e adorei São Francisco e resolvi mudar para lá para conseguir mais trabalho e abrir outras situações. Acabou sendo bem legal. A cabeça das pessoas é outra. Foi, pessoalmente, mais legal do que Nova York. Musicalmente, foi legal também. Eu fiz um trabalho num circo de teatro, meio na onda do Cirque du Soleil. Onde eu tocava baixo, teclado e percussão. Compus também um dos números para este show, que rodou uns três meses pelos Estados Unidos. Foi bem legal porque eu conheci os bastidores de uma produção grande. Eu não tinha vivido nenhuma experiência parecida no Brasil, na verdade, ainda não tive muito disso. Outra coisa legal que aconteceu na Califórnia foi um trabalho com o Hélcio Melito, que é o baterista do Tamba Trio, que morava lá na época e com o Weber Iago, que um pianista da pesada. Nesta época, surgiu o novo Tamba Trio. Eles tinham feito uma turnê em 1998 pelo Japão da Copa, que deu uma reerguida no projeto ainda com o baixista original. Logo depois, quando voltei ao Brasil, eles me chamaram para substituir o baixista original para formar o novo Tamba Trio, mas não rolou muita coisa. Eu já tinha voltado definitivamente para o Brasil, mas fui pra Califórnia para preparar esse trabalho. Desde que eu voltei, em maio de 1999, estou em São Paulo fazendo o trabalho com o Nelson Ayres deste agosto de 99. Tem sido uma super escola.

VMI – Voltando a Nova York, como foi a formação do quarteto para a gravação do seu CD?

Rogério - O CD não foi só em quarteto. Foi um CD autoral, onde eu convidei vários músicos. Acho que no total foram 21 músicos. Tem sete nacionalidades neste CD: trompetista japonês, flautista cubano, uma cantora Italiana, um cantor Francês, americanos, brasileiros, um grande pianista argentino e um outro japonês. Então, não foi um grupo específico, mas um conjunto grande de pessoas, que eu trabalhava esporadicamente. Alguns brasileiros que participaram foram: o guitarrista e violonista Romero Lubambo, o Dom Salvador, que foi uma pessoa importante neste CD, o trompetista Cláudio Roditi, que é primo do Roberto Sion, Hélio Alves, que é um grande pianista, o Wanderley Pereira, que é um baterista cego e carioca, que mora lá.

VMI – Quanto tempo durou a gravação?

Rogério - Não sei se foi uma gestação ou um parto. Durou... Desde 1992 e 93 eu já estava na pré-produção dele. Acho que no mínimo uns três anos de trabalho. Independente total, desde da parte financeira até a produção. Eu e o técnico que fizemos tudo. A Jane Duboc participou do CD, aliás, foi a única coisa feita no Brasil e o Joseval Paes também. Essas foram as duas participações brasileiras feitas aqui.

VMI – Você gravou com o Naná Vasconcelos a trilha sonora do filme “Sertão das Memórias”. Você já havia feito outras gravações de trilhas?

Rogério - Não. Na verdade, a trilha é do Naná. Eu participei da gravação e foi uma coisa muito bacana. Foi um cineasta cearense, chamado José de Araújo. Foi muito interessante porquê o Naná é um cara muito criativo no estúdio e super musical. Sem contar que o filme ganhou vários prêmios. Acho que em 1997, ganhou o Festival de Berlim. A gravação foi em 1996. Agora, saiu aqui no Brasil o CD Fragmentos com trechos da carreira do Naná e tem trechos desta trilha.

VMI – O seu segundo CD “Aprendiz” é o primeiro gravado no Brasil?

Rogério – É.

VMI – Quais são as composições?

Rogério - São minhas também. Tem uma canção, que é a faixa título do CD e foi a primeira música que eu fiz composta em cima de uma letra. A canção que está no CD anterior foi a letra que foi feita em cima da música.

No CD Aprendiz, tem a participação do Filó Machado, da Léa Freire, Teco Cardoso, Thiago Costa no piano, Edu Ribeiro na bateria e o meu irmão saxofonista Rodrigo. Foi um time mais reduzido. Este CD não teve a pressão de Nova York. Foi bem mais leve. A primeira faixa é um afoxé, tem um baião que o Filó canta, um bolero, um choro, que foi o meu primeiro choro, tem uma toada, que foi originalmente escrita para uma coreografia quando eu morava nos Estados Unidos, que eu nunca tinha aproveitado como música sem a parte coreográfica. Ficou bem interessante. Eu pensei em várias instrumentações diferentes. Têm fagote, violoncello e algumas coisas mais usadas na música erudita. Isso cada vez mais eu quero inserir no meu trabalho. São instrumentos lindíssimos, que vão entrar no meu próximo CD. Acho que faz falta na música popular essa troca de timbres.

VMI – Como é o trabalho com o Trio Nelson Ayres?

Rogério – Estamos juntos há quase cinco anos. Eu sinto que cada vez mais o Nelson confia em meu trabalho e me respeita. Tem inserido composições minhas no repertório. Uma coisa que é muito legal é a leveza no trabalho. Ele não tem intenção de pressionar. Nunca o ego está na frente. As músicas são delicadas e ricas. Assim, o CD está maravilhoso. O trio está muito conectado e o Bob Wyatt é maravilhoso.

O trabalho é mesclado. Não é exatamente música brasileira e não é jazz. É uma mistura que dá super certo. É uma grande escola. O Nelson preza muito o contato com o público.

VMI – O Nelson trabalha bem os encadeamentos. É mais difícil tocar com ele por causa disso?

Rogério - Absolutamente. É um cara que é muito aberto a sugestões harmônicas. Tem um bom gosto e bom senso harmônico fenomenais. Ele curte o nosso lado espontâneo. É muito fácil e gostoso tocar com ele. Infelizmente, não temos viajado muito. Agora, será lançado o novo CD dele. Esse é um trabalho mais fixo, em 2002 eu cheguei a fazer um trabalho com a Ná Ozzetti, que também tem essa leveza, mas é um trabalho um pouco mais fechado com coisas determinadas. Mas foi muito legal. Eu sempre fui um grande fã dela desde do começo do Rumo.

VMI – Para você, como está o circuito de música instrumental brasileira?

Rogério - Eu estou vendo com bons olhos. Tenho participado de espectador dos prêmios Visa. Tenho visto pessoas excelentes. Estas pessoas, com certeza, estarão fora da mídia. Apesar disso, elas estão fazendo música instrumental de qualidade e não estão interessadas em vender um milhão de cópias, pois amam o que fazem. A música instrumental brasileira é sincera. Estou falando da música brasileira mesmo e, não da música instrumental mundial, mesmo sendo músicos brasileiros tocando. Estou falando de ritmos brasileiros. Tem gente muito boa, que a gente não conhece. O choro teve essa coisa muito forte, que as pessoas colocam de lado. Mas é música instrumental brasileira. Ele nunca perdeu a força, porém temos que descobrir outros ritmos. Tem várias iniciativas acontecendo.

VMI – Como está o público de música instrumental? É um público crescente?

Rogério - Acho que é um público crescente, mas não tão exponencial. É um pouco de boca em boca. A gente não toca na rádio, mas é crescente. Eu sou bem positivo em acreditar. Eu acredito mais na música instrumental brasileira no exterior, infelizmente. Adoraria estar tocando a música no Brasil e ser pago bem para isso. Essa relação de eu ser o meu próprio produtor, é para que um dia eu consiga participar de festivais legais. Eu estou levando a minha música para Indonésia. Pela primeira vez estou indo tocar lá.

VMI – Para você, qual é o futuro da música instrumental no Brasil?

Rogério - Eu sou otimista por princípio. É difícil prever uma melhora absurda em curto prazo. Está havendo uma conscientização. Se as pessoas começarem a se ligarem no Brasil, será uma melhora recorrente. Falando de música em geral, no rádio você ouve músicas americanas com letras em português. Pensando em música instrumental acho que tem que se descobrir mais o Brasil. Ter iniciativas privadas, já que o governo está em dificuldades.

Agora, o valor baixo do couver artístico dificulta muito, porque a casa poderia ter um músico muito bom tocando e não tem porque o cara não vai se sujeitar a isso. Uma coisa que está se fortificando é a cooperativa de música, que está dando um impulso. É uma coisa muito legal, eu faço parte, são pessoas de boa índole e boas intenções e relações. Isso me faz ficar mais esperançoso de uma mudança. Eu sou otimista em relação a isso. Outra coisa: criar festivais pequenos. Por exemplo, a prefeitura de Indaiatuba tem um projeto de música instrumental semanal. Não precisa pagar uma maravilha, precisa ceder um espaço.

VMI – O que você acha da nova geração de músicos? Você tem alguns nomes que estão se sobressaindo?

Rogério - De pronto me vêm dois gaitistas: O Gabriel Grossi de Brasília, que mora no Rio de Janeiro, e o Victor Lopes, que está aqui em São Paulo. O Daniel Santiago também é um grande músico. O Thiago do Espírito Santo é um cara fenomenal e o Sandro Haick são multiinstrumentistas. Isso é incentivador. O Alex Buck e o baterista Edu Ribeiro. Uma grande cantora, a Isabela Fernandes. Ela é muito talentosa. Tem o bandolinista Danilo Brito, que está no Prêmio Visa. Tem muita gente boa, que estou impressionado.

Obrigada Rogério!