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Lupa Santiago


Sempre desafiando os limites musicais

A entrevista com o Lupa Santiago aconteceu no dia 27 de maio de 2004 na Sala Souza Lima, em São Paulo.

Lupa é um grande incentivador dos estudantes, mas não só dos que se dedicam à música e, sim, de todos que se dedicam ao constante aprimoramento. Ele é um músico completo, que estuda para sempre ser melhor. Além de músico, ele é o coordenador da Faculdade Souza Lima & Berklee.

Já tem vários CDs lançados com trabalhos repletos de técnica e sensibilidade. E a cada novo trabalho realizado, ele acrescenta novos elementos para estar sempre se superando e desafiando os limites musicais.

Acompanhem agora trechos da entrevista com Lupa Santiago contanto sua história e as suas idéias para o avanço do ensino de música no Brasil.

Mariana Sayad

  Entrevista com Lupa Santiago

Por Mariana Sayad e João Marcondes 

Dia 27/05/2004 na Sala Souza Lima, em São Paulo
Nome completo: Luís Paulo de Barros Santiago
Data de nascimento: 10 de abril de 1973
Local: São Paulo

Vozes Música Instrumental - Fale sobre sua formação musical.

Lupa Santiago – Comecei a ter aulas de violão com sete anos. Depois, virei um vagal até os 17 anos. Eu só tocava de vez em quando. Quando voltei a estudar, já tinha as bandas de rock. Estudei com alguns professores, mas o mais significativo foi o Pollaco, com quem estudei um ano.

Em 1994, fui para Los Angeles estudar no GIT. Fiquei um ano e alguma coisa lá. Acabei o curso, que era de um ano. Depois, voltei e passei três meses aqui e fui para Berklee. Fiz o curso de quatro anos e depois o mestrado nos Estados Unidos também.

VMI – Fale sobre suas principais influências.

LS – Acho que as influências variam com a idade e com o estilo em que se gosta. Quando eu tinha 20 anos, fui ter aulas com o Pollaco e passei a ter contato com o jazz. Foi aí que comecei a me aprofundar e as influências foram variando.

Quando fui para os Estados Unidos, comecei a ouvir outras pessoas e até mais música brasileira. Muita coisa do Tom Jobim me influenciou. Foi a coisa mais importante. Egberto Gismonti e César Camargo Mariano foram muito importantes na minha formação. Quando eu saí do Brasil, não tinha tanta produção de música brasileira como temos hoje. Até tínhamos, mas a produção era menor e achava os discos com mais dificuldade.

Lá fora, eu ouvia muito John Contrane e Miles Davis. Ao longo dos anos foram mudando meus “heróis”. Ainda bem, não é que mudam, acumulam. Hoje, eu escuto muito Greg Osby, Esteve Colleman, Dave Holland e Homero Lubamo. Talvez, estes caras não estivessem no meu quadro de influências musicais, mas acho que a gente ouve de tudo.

Acho que todas as fases do jazz me influenciaram muito. O jazz moderno mais com os nomes que já falei. Da música brasileira um pouco menos, pois só fui ter acesso fora do país. Hermeto Paschoal eu só fui conhecer mais nos Estados Unidos. Hoje, eu gosto muito do saxofonista Mané Silveira, o grupo Bonsai e a Mantiqueira. Tem muita gente boa. Eu gosto dos grupos novos. Eu sempre quero ouvir coisas novas. Eu nunca vou para o lado regional ou tradicional. Isso é uma coisa minha. Eu gosto de coisas novas, que abram alguma coisa nova em música. Se alguma coisa não me desafia, eu não gosto de ouvir.

VMI - Como chegou ao seu instrumento?

LS – Eu escolhi com sete anos. Eu queria fazer guitarra e a minha mãe não deixava. Ela dizia para eu devia fazer violão primeiro. Então, eu estudei violão por dois anos. Desde o começo, eu queria tocar igual ao Jimmy Hendrix. Eu ouvia rock e a guitarra é um instrumento natural para quem toca esse tipo de música.

VMI - Você já se dedicou a algum outro instrumento com a finalidade de ampliar sua visão na música? Por quê?

LS – Eu tive que estudar muita coisa de piano na época da faculdade e aprendi alguma coisa de bateria. Eu quero estudar mais, pois, tenho muito a aprender. Quando se aprende a escrever para big band, é legal ter contato com outros instrumentos. Além do piano e bateria, tenho uma noção de percussão indiana.

Eu adoro todos os instrumentos. O problema é que todo o tempo livre que tenho, quero me dedicar à guitarra. Sempre acho que posso melhorar de qualquer forma todo dia. Então, se eu tiver uma hora livre por dia, eu vou estudar guitarra. Mas se eu tivesse mais tempo estaria me dedicando à bateria, percussão ou ao piano.

VMI - Como você encara a didática musical no Brasil atualmente?

LS – Acho que todo dia está melhorando muito. Tem muita gente competente falando coisas boas. O tempo de “na terra de cego, quem tem um olho é rei” já acabou. Hoje, tem muita gente com dois, três, quatro e até cinco olhos.

Tem gente lendo bem, improvisando e compondo em vários estilos de música brasileira. E música brasileira que eu digo não é só baião e samba, é tudo. O fato de ser um músico brasileiro já é música brasileira. É música influenciada por todos os ritmos do mundo. Acho que tem muita gente antenada. O Brasil sofreu com uma escuridão de ditadura um tempão. Não chegava discos. Hoje, você vai numa loja e tem um monte coisas.

Com o advento do CD, as pessoas têm acesso a muita coisa. Em geral, as coisas estão melhorando, os ouvintes tendem a melhorar e assim os instrumentistas e compositores seguem a mesma tendência. Os ruins vão embora e ficam os bons.

Eu acho que o ensino tem melhorado e têm surgido faculdades boas. A quantidade de faculdades de música, que temos hoje é no mínimo dez vezes maior do que há uns oito anos trás. Então, vamos ter muito mais músicos formados. Teremos mais pessoas com conhecimentos legítimos, não que esse seja o único caminho.

VMI - Como foi sua experiência estudando fora do Brasil? Como e quando aconteceu essa decisão?

LS – Vou começar pela decisão: eu conhecia pessoas que já tinham feito essa faculdade e alguns que estavam fazendo e gostando. Então, eu quis ver como era lá, já que o ensino de música era muito influenciado pelos americanos. Não havia faculdades boas no Brasil. O ensino de música no Brasil não tinha a seriedade que tem atualmente e até hoje acho que a melhor escola de música popular do mundo é lá.

Eu conversei com minha família e eles me apoiaram. Eu consegui uma bolsa e já tinha economizado uma grana. As coisas meio que se juntaram. Foi um aglomerado de acontecimentos.

Depois que eu fui para Los Angeles, foi um caminho natural ir à Berklee. Porque em Los Angeles é uma faculdade que se aprende muita performance e não muito sobre o instrumento. Então falei: “quero arranjar, compor, reger e fazer outras coisas ligadas ao instrumento”. Então, fui para à Berklee.

Sobre a minha experiência de seis anos fora: foram os melhores anos da minha vida. Eu recomendo para todas as pessoas que puderem e quiserem fazer isso. Não só músicos. Passar um tempo fora é muito importante. Você tem que refazer todos os seus contatos pessoais, não tem família perto, não tem seus amigos de infância e nem namorada. Nada disso. Você começa tudo do zero. Lá, você é uma “criança” em termos pessoais. É preciso construir amizades e relações. Em termos profissionais, é a melhor coisa. Você estuda o dia inteiro. Ninguém liga. Você tem um tempo livre absurdo.

E mais, lá eu tive acesso a todos os meus “heróis”. Eu estive com meus ídolos frente a frente. Eu tive aula com eles. Eu peguei o conhecimento legítimo. É uma explosão de acesso à música. A profundidade que o americano estuda música é maior do que o brasileiro, muito maior. Não é melhor, é maior. Acaba sendo melhor porque acho que, em geral, as pessoas aqui tendem a pegar tudo superficialmente. É só ver o trabalho de transcrição, que faço em aula. O americano quando vai estudar João Bosco, ele transcreve tudo dele. O brasileiro compra o song book. Estou generalizando, pois existem brasileiros e brasileiros. Americanos e americanos.

O conhecimento lá é muito mais dissecado. A Berklee é a primeira universidade de música popular e existe há cinqüenta anos e tem muito dinheiro investido, em pesquisa, inclusive. O Brasil tem a Unicamp, que existe há uns dez anos. Nos Estados Unidos, existe, sei lá, umas 60 escolas de música excelentes. A Europa também tem umas 60 de alto nível e Brasil tem dez ou doze escolas. Este número, hoje, é muito bom... Além do conhecimento, eu conheci gente do mundo inteiro. Eu tinha amigos da Dinamarca, Israel e da Arábia, sendo que morávamos juntos.

VMI – Além destas experiências, existe mais alguma coisa essencial de se estudar fora? Até pelo tipo de música que se estuda lá.

LS – Não. Estilo de música não é muito o problema. O pessoal fala: “Eu quero estudar música brasileira, então não vou viajar para fora”. Acho que isso é irrelevante. Acho que tem que ir para fora, se pode ir. Só não pode pensar nisso, quem não pode ir. Se não conseguir a bolsa ou não tem dinheiro. É ficar frustrado à toa. Não existe a história: “Quem for, se dará bem e quem não for não vai dar certo”. Acho que é totalmente possível a pessoa se desenvolver muito bem por aqui. A diferença é que aqui a quantidade de ferramentas é menor do que lá.

Quando falo para a pessoa viajar, não é só para os Estados Unidos e, sim, para vários países. Acho importante você morar fora para descobrir que o seu mundo é muito pequeno. Quando viajamos, percebemos que somos muito pequenininhos perto do resto do mundo.

VMI - Quais são os principais aspectos estudados para um músico ter uma formação completa?

LS – O músico precisa estudar de tudo. Precisa estudar muita harmonia e precisa ler muito bem. Isso é bem básico, mas você encontra muita gente que não lê muito bem. Precisa escrever muito bem. É importante compor e não só música brasileira. Se ele não compõe, desaparece, mas a obra de um compositor sempre fica. Sobre a improvisação, é uma coisa legal e fantástica. É uma composição instantânea, mas acaba na hora também e é mágica por esse motivo. Já a composição não, ela fica por anos e para outras pessoas. É importante saber arranjar também. Mas acho mais importante de tudo, é ouvir todo tipo de música, deixar de ser crítico e começar a ouvir música com ouvido de cientista. Ouvir de tudo e transcrever. Estudar tudo aquilo, aprender tudo, reproduzir tudo e depois transformar. Primeiro se aprende a fazer o bolo e depois o transforma em outro bolo.

Precisa ouvir todas as pessoas e ir muito a shows. A parte formal do estudo é fantástica, mas a transcrição é essencial. Aceitar toda e qualquer proposta de tocar. É isso.

VMI - Você, como arte-educador, está passando conhecimentos e seus estão alunos. Como você se sente com isso?

LS – Estou muito orgulhoso. Super feliz. Quando eu voltei, prometi a mim, assim como o Carlos Ezequiel, que quando voltasse iria ensinar. É uma delícia. Eu tenho a responsabilidade de passar para outras pessoas. Acho muito ruim não ensinar às pessoas a fazer alguma coisa que precisam e querem. Nós precisamos passar o conhecimento. Estamos nessa vida para distribuir.

Todos os meus alunos estudam muito. Estão com cabeça muito aberta e tocam muito bem. Nós temos uma responsabilidade muito grande, que vai durar pelos próximos 70 anos. Até porque é mais gente trabalhando essa música. É muito ruim fazer um disco e só ter cinco lançamentos naquele mês. É legal todo mês lançarem uns dez discos de música instrumental. Eu acho legal as pessoas comentarem a música instrumental. Esse círculo é a coisa mais importante. É um círculo de artistas.

VMI - Como é o respeito aos músicos brasileiros fora do país? Cite alguns nomes da música instrumental no Brasil, que são reconhecidos e estudados em outros países?

LS – Isso é muito legal. A música brasileira é super respeitada, assim como a búlgara, a cubana e as outras. As pessoas sempre falam que a música brasileira é a melhor do mundo. Eu não acho que seja a melhor do mundo. Todas as músicas são as melhores do mundo. Somos todos iguais. Todos os países têm gente muito ruim e gente muito boa. O músico brasileiro quando é bom e chega aos Estados Unidos, conquista. Por exemplo, o Romero Lubambo, que ficou muito mais famoso lá do que aqui no Brasil. A Luciana Souza é outro exemplo. Entre milhões de outros músicos que estão lá. Com o tempo, todos se dão bem e todos são respeitados igualmente aos americanos. Não existe muito essa divisão. Lá é tanta gente diferente, que não tem essa diferença de nacionalidade. Agora, o Brasil é muito respeitado porque têm muitos músicos maravilhosos. O Brasil tem uma tradição musical muito boa e respeitada. Lá, eu estudei muita coisa de músicos brasileiros. Por exemplo, do João Bosco ou do Hermeto Paschoal.

VMI - Até que ponto a música brasileira e o jazz influem em sua música?

LS – Em todos os pontos da minha vida. Eu ouço música o dia todo. Dependendo da época, eu ouço mais música brasileira ou jazz. Estou sempre estudando e transcrevendo músicas brasileiras. É verdade, que nos últimos anos tenho estudado mais jazz. Se for colocar em porcentagem, eu estudo 10% de música erudita, 30% de música brasileira e o resto de jazz. Mas por puro gosto. Eu acho que você tem que ser feliz. Eu não gosto desta coisa tupiniquim de que “Você é brasileiro e tem que estudar música brasileira”. Acho que você tem que estudar o que gosta, desde que seja muito. Você tem que ir aonde seu coração manda.

VMI - Aspectos externos influem no desenvolvimento de suas composições?

LS – Existem. O primeiro é o psicológico: se eu estou bem, flui de um jeito a música, mas se estou bravo a música flui de outro jeito. O que tem me influenciado muito ultimamente é a pintura. Eu tenho estudado muitos pintores e ido em exposições. Essa parte visual para mim, Lupa Santiago, influencia muito. São coisas que me identifico muito. Eu nunca saio ileso de uma exposição de arte. Sempre mexe comigo. Na verdade, a arte em geral é algo que me influencia muito.

Pessoas também. A música “Café do Pierre” eu fiz para um amigo meu, que tinha o dobro da minha idade e estudava também o dobro do que eu. Nós estudamos todos os dias juntos durante um verão e ele fazia um café maravilhoso e no final eu fiz uma música para o café dele. No disco novo, tem uma música que eu fiz para uma fazenda de um amigo, que eu ia desde criança durante dez anos. Depois eu fiquei dez anos sem ir. No dia que eu fui, a sensação de estar naquele lugar, com aquelas pessoas e a brisa me deu vontade de compor. Eu ouvi a música na minha cabeça, aliás, eu compus lá. Então, as pessoas me levam a isso.

VMI - Sobre o trabalho com o baterista Carlos Ezequiel, quais idéias vêm sendo desenvolvidas quanto à composição, improvisação e interação? Como foi a formada a concepção do trabalho?

LS – Cada vez mais nos preocupamos com o aspecto composicional, pois não existe improvisação sem composição. Estamos querendo criar músicas mais “líquidas”, onde uma música flua com a outra. Por exemplo, temos uma música no CD novo, que é decorrente no disco. Ela acontece quatro vezes. Mas não é a mesma faixa, nós a tocamos entre as músicas. O disco foi gravado em duas tardes. A maioria das músicas foi tocada duas vezes e algumas uma vez só. Nós não parávamos entre elas. O disco foi tocado de cabo a rabo sem cortes. Esse tipo de coisa que queremos. Cada vez mais natural e se errar, ótimo, esse erro faz parte da música e vamos transformá-lo em beleza e em composição. Ao mesmo tempo, tem muita coisa escrita e formas e métricas novas. A gente sempre busca estudar isso, pois é o principal. Uma forma diferente de abordar coisas que estudamos. Nós assimilamos, tocamos e renovamos. Quase todos os solos são em conjunto. Não tem um solo de guitarra e, sim, guitarra com saxofone ou baixo com bateria. Para enfatizar o grupo e não o indivíduo. Assim, enfatizaremos a obra e menos o indivíduo. Antes, ficava um na frente solando e os de trás acompanhavam. Cada vez mais isso acontece. A intenção é que os integrantes formem uma função melódica. Um está completando o outro e os quatro desenvolvem a mesma história.

VMI - Como foi a receptividade no Brasil e no exterior do CD “Images”. Por quê do nome?

LS – A receptividade foi ótima. Esgotou e recebemos muitos elogios. Abriu muito campo e muitos shows. É um CD, em termos de gravação, diferente deste outro que falamos na pergunta anterior, mas idéia é a mesma. Só que os instrumentos funcionam um pouco menos melodicamente. A idéia era essa também, porém não desenvolvemos tanto quanto no segundo. As músicas eram mais individuais.

Neste CD, o arranjo era mais pré-definido e com mais música brasileira do que o novo. Este novo está mais influenciado pelo jazz, porque nós escutamos mais jazz. O Carlos (Ezequiel) veio com a influência nordestina e eu com influência mais européia. E no disco novo tem mais coisa de swing americano. Ele é mais geral. Não dá para defini-lo com brasileiro, nem europeu e nem americano. Enquanto o “Images”, você consegue defini-lo como brasileiro. O “Images” nós também gravamos em dois dias e duas vezes cada. Só uma delas que não, pois tínhamos apenas doze minutos de estúdio e a música tem onze minutos e meio.

Quando se está gravando um disco, ele não é um produto comercial. Pode vir a ser, mas enquanto está sendo gravado é uma obra de arte, que tem como função reproduzir o momento. Porque se você começa a pensar demais e regravar várias vezes, não está reproduzindo o momento e, sim, como você acha que deveria ser o momento. Então, mata a música.

Escolhemos este nome porque eu e o Carlos temos muito a parte visual da música. Na verdade, o Debussy começou com isso. As nossas músicas sempre têm nomes de alguma imagem, como se a víssemos. Eu sempre associei as minhas músicas a algumas imagens e vice-versa. Buscamos muita inspiração nas pinturas. Procuramos associar uma coisa à outra.

VMI - Como foi a idéia do CD lançado recentemente “Jazz em dobro” com o guitarrista Pollaco, que vem sendo um sucesso de crítica e de público? Como é trabalhar improvisação, interação e composição em uma formação tão limitada?

LS – A receptividade está sendo ótima. Aliás, superou nossas expectativas. É outro trabalho e uma outra história. Nós estávamos estudando e eu estava meio de saco cheio desta história de um acompanhar enquanto o outro improvisa. Então, procuramos desenvolver um conceito de contraponto, em que as duas guitarras improvisam juntas. É um disco bem composicional também. Tem algumas músicas free, que saíram de um improviso na hora. Nós não combinamos nada. Eu falei para o técnico: “Deixa o microfone ligado”... E a música aconteceu. Assim surgiram quatro músicas novas, que nunca mais vamos tocá-las porque não tem como repeti-las.

É um disco com muitas composições, liberdade para improvisação e os dois instrumentos funcionam como contraponto.

O disco que gravei com o Carlos Ezequiel tem uma energia muito forte. Gostando ou não, você vai se mexer da cadeira. Pode até ser pra ir embora ou gritar. Enquanto esse, com o Pollaco, é outra história, mais ambiente. Não no sentido doce. É menos louca e mais tranqüila. O próximo disco nós vamos gravar com trompete (duas guitarras e um trompete). Será uma outra história. Quando eu improviso no quarteto é bem diferente porque estou muito mais livre de harmonia, às vezes, eu imponho a harmonia que eu quero usar. Quando o baixista toca as notas do compasso, eu posso fazer daquilo o acorde que eu quiser. Com o Jazz em Dobro eu não posso. É mais arranjado.

VMI – O que você acha da nova geração de músicos?

LS – Fantástica. De uma maneira sadia, eu os invejo. Eu queria ter os professores que eles têm hoje. Quando eu estava estudando, não tinha essa quantidade de gente que voltou de fora do Brasil. Não tinha esse acesso à informação e esse monte de referências, que se têm hoje. Por exemplo: Nenê não tinha um disco, pois tocava com outras pessoas. Para achar era importado e só tinha numa loja no centro da cidade e custava uma grana absurda. Hoje, você acha em todos os lugares. Eu estou muito feliz. Acho que hoje tem muita gente muito boa, com uma cabeça muito melhor e num momento muito melhor também. Estou muito otimista.

VMI – Desta nova geração, tem algum músico que você acha um destaque?

LS – Eu ouvi um cara esses dias, que achei fantástico. Chama-se Diego Figuero. É um cara do Prêmio Visa. Ele é um absurdo. Para mim, o Bonsai é nova geração. O Nenê não é nova geração, mas o trabalho dele é nova geração porque surgiu faz dois discos e não tem nada antes disso. Então, é complicado falar de nova geração. Tem muita gente boa. Vinicius Dorin é nova geração? E o Victor Alcântara? Djalma Lima?

VMI – Para você, qual é o futuro da música instrumental no Brasil?

LS – Eu acho que será muito bom. Quanto mais pessoas se deixarem influenciar por tudo e todos, acho que vai ser muito legal. O brasileiro tem que entender que ele não é o melhor e nem o pior. Aqui é tão bom e tão ruim quanto qualquer lugar. Acho que esse é o primeiro ponto. A tendência é melhorar. Há grupos muito bons.

Existe um grande empecilho, que é o brasileiro se piratear. O brasileiro consome muita pouca música. Fala muito, mas consome pouco. Compram poucos CDs e vai pouco a shows. Isso é péssimo porque o ciclo não acontece. Nem todo mundo tem os CDs que gostam. Para mim, todos tinham comprar CDs de música brasileira pelo menos. É importante isso. Então, os músicos reclamam que a música brasileira não dá dinheiro, mas os músicos mesmo não compram CDs. Isso é a única coisa que pode sabotar. Eu não pensava assim. Mas eu estou vendo isso. Estou vendo as pessoas copiarem CDs nacionais, não ir a shows e alunos querendo aprender esse tipo de música, mas eles não a consomem. Isso é péssimo. Chegará a um ponto em que muita gente estará tocando isso e ninguém assistindo. O instrumental é sempre a fatia que vende menos e as pessoas deveriam comprar mais, assim as gravadoras vão olhar mais.

Lupa muito obrigada!