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Nelson Faria


Um músico que dispensa comentários

O violonista e guitarrista Nelson Faria nasceu em Belo Horizonte, mas logo cedo se mudou para Brasília. Estudou com grandes nomes, como Joe Pass, Scott Henderson, Sidney Barros e outros (citados na entrevista). Além de um grande instrumentista, compositor e uma pessoa maravilhosa, Nelson tem vários livros lançados.

Vamos deixar de lado as preliminares, para irmos direto à entrevista com Nelson Faria. Boa leitura!

 

Mariana Sayad

Entrevista com Nelson Faria

Por Mariana Sayad e João Marcondes

Dia 07/04/2005
Nome completo: Nelson Jairo Sanches Faria
Data de nascimento: 23 de março de 1963
Local: Belo Horizonte, MG
Cidade em que mora atualmente: Rio de Janeiro

Vozes Música Instrumental - Fale sobre sua formação musical.

Nelson Faria - Iniciei como autodidata. Os primeiros contatos com a música por influência familiar. No final da década de 70, tive meu primeiro professor de violão Sidney Barros (Gamela), que me despertou para a arte do violão solo. Em 1983, fui estudar no GIT (Guitar institute of technology) em Los Angeles, EUA, onde tive meus principais professores, entre eles: Joe Pass, Joe Diorio, Frank Gambale, Scott Henderson, Ron Eschete e Ted Greene. Quando voltei ao Brasil, fiz uma parte do curso de música na UNB em Brasília e depois mudei para o Rio e concluí meu curso aos poucos. Em 2001, voltei aos EUA para estudar arranjo e orquestração no BMI Jazz Composers Workshop.

VMI - Fale sobre suas principais influências.

NF - Desde novo, meu principal atrativo na música foi a bossa nova e a geração filha da bossa nova com músicos como Toninho Horta, Joyce, Dori Caymmi, Milton Nascimento, Helio Delmiro, João Bosco etc... Depois, quando fui morar nos EUA tive uma forte influencia do jazz, principalmente de Joe Diorio, Pat Martino, Ted Grenne e Wes Montgomery.

VMI - Como foi sua iniciação musical com o professor Sidney Barros?

NF - O Gamela, como o chamamos, foi uma pessoa fundamental na minha formação. Ele me apresentou o violão solo e também me estimulou a abraçar a música como profissão. O Gamela me pôs em contato com o jazz e com a música instrumental brasileira, a qual eu conhecia pouco.

VMI - No que a experiência de estudar no exterior auxilia na formação do novo músico? Existem aspectos negativos?

NF - No meu caso foi muito importante e decisivo, pois fui para o exterior em 1983. Nesta época, as escolas de música popular no Brasil ainda não tinham muita estrutura, e a informação pouco sistematizada a nível didático. Atualmente, o Brasil já está mais preparado, com escolas e professores bem formados. Outra questão importante nas escolas de música no exterior era o aparelhamento instrumental e tecnológico, com aulas em vídeo, computadores, teatros e salas de aula bem equipadas.

VMI - Como foi sua experiência no GIT? Quais professores foram os mais importantes nessa trajetória?

NF - A experiência de estudar em outro país, com as condições que o GIT oferecia foi decisivo na minha carreira. O Joe Diorio foi sem dúvida alguma o que mais me influenciou.

VMI -  Como foi o BMI Jazz Workshop? Qual é a importância desse tipo de evento?

NF - O BMI foi uma experiência já mais madura. Eu lidei com a música de uma forma mais ampla, fazendo arranjos para orquestra. Nas aulas, levávamos os arranjos, ou parte deles, para análise do professor, que nos indicava de que forma poderíamos tirar melhor proveito da instrumentação escolhida, opções de condução de vozes, escrita da partitura etc... Uma vez por mês, esses arranjos eram tocados por uma orquestra e nós podíamos ouvir na prática o que funcionava e o que não funcionava. Foi uma experiência de muito aprendizado.

VMI - Como vem sendo desenvolvido o estudo de música popular no Brasil? Em que aspectos ainda são necessários alterações?

NF - Acredito que de 15 anos pra cá, muita coisa mudou. Várias escolas de música popular foram montadas com um nível bastante alto de ensino. Uma das coisas que sinto falta é essa possibilidade se ter uma orquestra à disposição, ou ao menos pequenos grupos ou big bands.

VMI - Você acredita que em breve o mercado musical estará saturado devido a grande demanda de músicos se formando na faculdade? Como isso pode ser resolvido?

NF - Basta analisarmos o que acontece em países desenvolvidos para notarmos que na verdade temos ainda uma grande carência de cursos de música, principalmente na área da música popular no Brasil. Os EUA, por exemplo, têm várias universidades e nem por isso o mercado está saturado. Precisamos sim de músicos mais preparados e, também ampliar o leque de atuação desses músicos no mercado com a criação de mais orquestras e espaço para música ao vivo.

VMI - Como foi a gravação de seu primeiro disco Ioiô em 1993? Quem participou?

NF - Este disco foi na verdade o resultado natural do trabalho que eu vinha desenvolvendo em shows com um quinteto no Rio de Janeiro. A formação era: Eu no violão e guitarra, o Hamleto Stamato no piano, Rodolfo Cardoso na bateria, Adriano Gifoni no contrabaixo e Sérgio Galvão na bateria. Precisava ter uma banda montada para experimentar minhas composições e arranjos. Fizemos vários shows antes de entrar em estúdio. Tem inclusive uma música que foi gravada neste disco que foi composta "por acaso" durante um ensaio, onde eu, o Rodolfo e o Hamleto esperávamos pelo baixista e saxofonista. Resolvemos sair tocando alguma coisa e a melodia da música aconteceu para nós lá. Esta música passou a abrir os nossos shows e é a primeira faixa do CD - Baião por acaso.

Além deste grupo básico, tive a participação de vários amigos, como o Nivaldo Ornelas, que chamei para gravar o prelúdio número 3 do Villa-Lobos. Inclusive, durante a passagem de som, acabamos compondo outra faixa (Tijucana), que nasceu no estúdio, totalmente improvisada. Teve também a participação da Cássia Eller na música Francisco do Milton Nascimento. Foi interessante que eu tocava esta música nos shows e quando fui gravar resolvi convidar a Cássia, com quem eu tocava na época. Ela estava grávida de 8 meses e cantou com aquele barrigão... Quando terminamos a faixa ela falou: - “Se meu filho nascer homem vai se chamar Francisco!” E o Chicão taí...

A Zélia Duncan também foi uma participação super especial. Fiz um choro (que não tinha nome) totalmente inspirado por um show do Carlos Malta que eu tinha assistido. Daí mostrei pra Zélia e contei a história de que cheguei em casa depois do show cheio de notas na cabeça e compus aquele choro... Zélia pediu uma cópia do choro e no outro dia apareceu com a letra e o título da música: "Influenciado". Além destes, tive a honra de ter no CD o Nico Assumpção, que depois se tornou um grande amigo e parceiro.

Nico fez um solo tão incrível, que uma vez um aluno do curso de arranjo do Ian (Guest) fez um arranjo para metais e escreveu o solo inteiro pra banda tocar! Além do Nico, tive o Yuri Popoff, o Carlos Malta, o José Namen o José Marcos (que era o tecladista da Cássia na época) e o quarteto de Flautas da Lena Horta. O CD saiu pela Perfil Musical e desde 2003 peguei de volta os direitos de edição.

VMI - Qual disco mais já tem lançado? Como foi a gravação de seu último disco em 2002?

NF - Depois do Ioiô , lancei um CD chamado Beatles, um tributo Brasileiro gravado em parceria com o José Namen, que é meu primo e pianista em Belo Horizonte. Fizemos um CD instrumental com releituras para as músicas dos Beatles. Em 1999, fiz com a Carol Saboia o CD Janelas Abertas só com composições do Jobim menos conhecidas (tipo lado B) e foi produzido pelo Almir Chediak.

Em 2000, gravei com o Nico Assumpção e o Linconl Cheib o CD Três/Three. E em 2002, o CD Nelson Faria em que toco apenas o violão e tenho convidados como Toninho Horta, Paulo Moura , Jerzy Milewski, Marçalzinho, Richard Boukas, Arthur Lipner e entre outros. Comecei a gravar este CD em Nova Iorque. Estava morando lá por ocasião do curso de arranjo e um amigo me cedeu algumas horas de estúdio. Terminei no Brasil, fazendo algumas faixas no meu estúdio em casa e outras no Studio Up com quem tenho uma parceria atualmente.

VMI - Qual a importância do livro "A arte da improvisação" para sua carreira?

NF - Este foi meu primeiro livro e foi o que mais me projetou aqui no Brasil. Depois que lancei este livro passei a ser mais conhecido e convidado a participar de workshops e oficinas por todo o país. Muito músico me fala deste livro, do quão importante ele foi para a formação deles. Acho que fiz um trabalho bacana, honesto, passando pra frente as informações que tinha ido buscar lá fora.

VMI - Como foi o processo de pesquisa e elaboração do livro "The Brazilian Guitar Book" em 1996?

NF - Engraçado... Fui fazendo este livro sem ter editora e nem mesmo perspectiva de lançá-lo. Não sei porque, achava que o mercado para o livro seria o exterior e já fui logo escrevendo o livro em inglês. Esse processo demorou um ano inteiro. Catalogava as levadas que eu achava interessantes nos discos e quando achei que tinha já algum material que poderia ser publicado, procurei o Almir (Chediak) que era meu editor. Mostrei o livro pra ele e ele confirmou minhas expectativas. Disse que eu deveria apresentá-lo a uma editora fora do país. Eu me lembrei, então, de um amigo de Los Angeles (o Bill Gable) e liguei pra ele para pedir uma orientação. O Bill me falou sobre a Sher Music, que era uma editora muito boa e que tinha acabado lançar um livro sobre música Cubana. Pensei eu, porque não brasileira? Mandei um boneco do trabalho para apreciação da editora, que me respondeu imediatamente e já mandou um contrato. Este livro abriu muitas portas lá fora, me levou a dar workshops em vários países e nas melhores universidades de música americanas (Berklee College of Music, Manhathan School, New York University e outras).

VMI - Qual a importância dos materiais didáticos que vem sendo lançados em grande quantidade no mercado musical brasileiro?

NF - Acho que quanto mais material bem feito melhor. Todos só temos a ganhar. Acho que quando a coisa é boa deve vir com fartura, agora os bicos, os que fazem meramente por comércio deveriam se retirar e vender bananas...

VMI - Como é o seu processo de composição? Que aspectos você mais valoriza em sua música?

NF - Acredito que quem manda na música é a melodia. É ela que eu procuro valorizar através da harmonia e dos arranjos. Ando com um pequeno gravador digital na mão para cantarolar as melodias que me chegam a cabeça, depois vou pro instrumento e organizo as idéias.

VMI - No que a experiência de acompanhar variados nomes da música brasileira auxilia na formação da sua identidade musical?

NF - Acho que nossa música é o resultado de nossas experiências como um todo. Nosso relacionamento, as coisas que vemos, comemos, cheiramos, tocamos e ouvimos. Ou seja, a música nos chega pelos cinco sentidos e não só pela audição. É diferente tocar com alguém que você admira, ou poder dividir o palco com um amigo. Acredito ter aprendido muito com todos que dividi o palco ou com quem toquei em diversas situações, sendo profissionais ou não.

Um dos parceiros mais exigentes com quem já trabalhei foi o Nico Assumpção a quem eu devo muito da minha performance hoje. A Cássia Eller me deu o toque Rock'n Roll, que faltava e o João Bosco, com quem eu toco desde 1999, tem sido uma grande escola e parceria. Fui o produtor e arranjador de seu último CD (Malabaristas do Sinal Vermelho) e tive dele total confiança e apoio para escrever à vontade para as cordas, metais e madeiras.

VMI - O que você acha da nova geração de músicos?

NF - Tem muita gente boa vindo por aí com conhecimento, preparo e uma boa dose de música brasileira correndo nas veias. Tenho gostado muito do que tenho ouvido.

VMI – Para você, qual é o futuro da música instrumental no Brasil?

NF - Com o advento da internet e a possibilidade de vendas de música por download, o mercado está se abrindo para os independentes que fazem um canal de comunicação direto com quem gosta desta música, sem ter de se submeter ao padrão musical que tomou conta de uma década inteira nas gravadoras do Brasil. Acredito que o melhor ainda está por vir!

Obrigada Nelson!