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Rodolfo Stroeter


Uma das maiores forças da nossa música

O que muitos CDs de música instrumental têm em comum? Rodolfo Stroeter. Ele é um dos nomes mais importantes da música, seja cantada ou instrumental. Além de um grande baixista, Rodolfo é compositor de lindas músicas e produtor de inesquecíveis trabalhos.

Ele é uma pessoa inquieta e graças a esta inquietação, criou o selo Pau Brasil dedicado a lançar CDs de altíssima qualidade, como “Sol de Oslo” (Gilberto Gil) ou os dois primeiros trabalhos da Banda Mantiqueira, ou o “São Gonçalo” do violeiro Paulo Freire e muitos outros trabalhos memoráveis.

Aqui no site, a entrevista está pela metade, pois a outra parte estará disponível no livro “Vozes da Música Instrumental”, que em breve será lançado. A nossa conversa aconteceu na casa de Rodolfo, em São Paulo , no dia 16 de agosto de 2006.

Mariana Sayad

Entrevista com Rodolfo Stroeter

Por Mariana Sayad

Nome Completo : Rodolfo Cerqueira Stroeter
Data de Nascimento : 17/11/1958 – Signo de escorpião
Local : São Paulo

Vozes da Música Instrumental - Fale sobre a sua formação musical.

Rodolfo Stroeter - Foi muito voltada para o instinto musical, eu acho. Eu tive vontade de ser músico muito cedo. Eu comecei a tocar violão com uns oito ou nove anos de idade. Foi quando comecei a entender e a me apaixonar pelo universo da música. Em 1968, Estava eclodindo um monte de movimento. Eu acompanhei tudo isso com os olhos de uma criança, mas de um jeito muito musical.

Nos festivais da Record, eu fiquei muito impressionado quando eu vi o Chico Buarque aparecer com a “Banda” e “Roda Viva”. Caetano cantando “Alegria, Alegria”, o Gilberto Gil com “Domingo no Parque”, o Edu Lobo com “Ponteio”, a Elis Regina cantando “Arrastão”. Quando eu vi isso acontecer, o ambiente de festival que na época tinha uma força muito grande. Pela época política e pelo talento das pessoas. Eu fiquei muito impressionado com a música. Eu não sou um músico, até pela idade, que acompanhou a bossa nova no meu início de vida. Eu não ouvia e não sabia da importância do Tom Jobim e João Gilberto. Eu ouvi muito a tropicália, o Chico e Edu Lobo. Isso iniciou em mim um interesse maior pela música. A primeira lembrança forte de música que eu tenho.

Depois, eu fui tocando e tirando as músicas. Eu descobri que o meu interesse maior não era na parte aguda do instrumento e, sim, na parte grave. Eu comecei a descobrir que com as cordas de cima: Mi, Lá, Ré e Sol eu poderia fazer mais coisas, uns desenhos e que as bases dos acordes estavam todas ali. E descobri que o baixo tinha essas quatro cordas e que segurava – vamos chamar assim – entre a harmonia e o ritmo. Aí com uns 14 ou 15 anos, o meu pai me deu o meu primeiro baixo elétrico. O começo foi assim.

Quando eu estava no colegial, comecei a estudar no sentido mais profissional e de ser profissionalizado por aquilo. Eu tinha aula com alguns músicos aqui de São Paulo, como Luiz Roberto de Oliveira e Edgar Poças, que já eram músicos bastante maduros, tinham uma formação fora do Brasil e conheciam harmonia e bossa nova. O João Gilberto, talvez, seja a pessoa que mais tenha me influenciado no sentido da música, em que mais me espelho. Embora, o que eu faça nada tenha a ver com a música dele. Mas fiquei maluco com a música dele.

Logo depois, quando eu tinha 18 anos, já estava com um bom desenvolvimento musical, já estava tocando, lendo cifras e partituras. Apareceu uma oportunidade de tocar com o Zeca Assumpção com quem eu tinha aula, que era muito meu amigo. Ele tinha voltado dos Estados Unidos e queria me encaixar em alguma coisa. Um músico muito experiente na época, Vicente Salvia (um excelente arranjador), chamou o Zeca para tocar, mas não pôde ir e me mandou. Começou a história, de eu estar mais profissionalizado, logo depois disso, eu já estava tocando o Lanny Gordin (guitarrista da tropicália), tinha uns bateristas que variavam. Logo depois disso, o Nelson Ayres foi me ver tocar. Ele já tinha chegado dos Estados Unidos e o Zeca já tinha falado ao meu respeito com ele.   Ele me chamou para fazer um grupo e começou a tocar com a gente, pois o Lanny se afastou do grupo e o Nelson se integrou ao grupo: eu, Nelson e aí o Azael. Começava ali o germe do Pau do Brasil. Depois veio o Sion, começamos a tocar num bar, chamado Lei Seca. Começamos a trabalhar: eu, o Nelson, o Sion, Costita, Azael. Isso foi se adequando até que adquiriu uma força, que tivemos a vontade de personalizar essa música. Nós tocávamos basicamente jazz e música brasileira de forma improvisada, mas não tinha uma personalidade de grupo.

Quando fortaleceu, para dar o passo para ser o grupo, tivemos uma reunião na casa de meu pai para decidir o que iríamos fazer. Eu sempre gostei muito de ler, sempre fui muito para literatura desde a minha infância. Eu estava devorando os livros do Mário, do Oswald, Alcântara Machado e tive a idéia de chamar o grupo de Pau Brasil. Nós queríamos internacionalizar o conjunto e tem o nome do Brasil. Esse Pau Brasil foi o que deu nome ao Brasil e, ao mesmo tempo, é o nome que o Oswald deu ao Manifesto. Nós temos uma ligação com a questão da Semana da Arte Moderna, no sentido de transformação temática que usamos e do que fazemos. Isso é o preposto do Pau Brasil. Assim que começou e o negócio andou.

Ao mesmo tempo, eu me integrei com dois grupos, que eu acho que no cenário instrumental, além do Pau Brasil, foram fundamentais no final da década 70 e começo da de 80. Um era um grupo do Azael. Era um duo com um alemão, chamado Felix Wagner, se chamava Divina Increnca. Aliás, esse nome é de um livro da época do Modernismo, cujo pseudônimo Juó Bananére . Ele escreveu esse livro, Divina Increnca, que era um livro em versos com a prosódia dos italianos que moravam no Brás, na Barra Funda. Era um grupo de música muito livre.

Ao mesmo tempo, o Zeca nessa época foi para o Rio de Janeiro com o Egberto Gismonti para tocar no Academia de Danças. E o Zeca tocava com o Hermeto, quando morava aqui em São Paulo. O trio de base do Hermeto na época era: o Zeca Assumpção, Zé Eduardo Nazário e o Lelo Nazário. Disso fizeram um grupo autônomo, o Grupo UM. Eles já tinham gravado um disco chamado Marcha Sobre a Cidade, e logo quando o Zeca foi para o Rio, ele me deu o lugar dele. Eu me integrei a esse grupo, que foi fundamental para mim. A partir do momento em que me integrei ao Zé Nazário, eu estou falando de um momento em que eu tocava em três grupos e existia um momento muito ativo de música instrumental aqui. Eu acho que essas três coisas que foram me dando força para caminhar. Eram grupos completamente diferentes, mas tinham uma liberdade de expressão como princípio que era muito importante. Ali, fui percebendo como era essa linguagem e fui crescendo como profissional.

VMI - Quanto tempo você ficou no Grupo UM?

RS - Todo o tempo depois que o Zeca saiu até o final do grupo. Nós gravamos como grupo, um outro disco chamado “Reflexões sobre a Crise do Desejo”: eu, o Zé Eduardo, o Lelo, o Mauro Senise e o Félix Wagner – que ainda morava aqui no Brasil, depois ele foi para a Alemanha. Depois, gravamos um outro disco, chamado “A Flor de Plástico Incinerada”: eu, Zé Eduardo, o Lelo e o Teco Cardoso. Depois, gravei alguns discos com o Lelo também, que eram discos solos dele. Gravamos um LP com a Divina Increnca, que depois se dissolveu. E o Pau Brasil foi o grupo que eu mais me fixei, que era o que eu tinha uma identidade maior. Foi o grupo que eu fiz nascer junto e as pessoas são muito amigas até hoje. Tanto que o grupo ainda existe. Logo depois da fundamentação do grupo, o Costita se afastou e o Paulo Belinatti veio de Genebra. Ele morava lá, inclusive o conheci lá na minha primeira viagem internacional, ele arrumou uns concertos para fazermos lá na Suíça, eu estava com o Lelo e com o Félix. Nós tínhamos um trio: dois pianos e um contrabaixo. O Paulo se integrou ao Pau Brasil, então virou um quinteto: eu, Nelson Ayres, Roberto Sion, Paulo Belinatti e o Azael Rodrigues, disso gravamos o primeiro LP do grupo, que se chama Pau Brasil. Assim nasceu e daí que começou tudo.

VMI - Fale sobre suas principais influências.

RS - Sempre que me perguntam isso, eu nunca sei o que responder. Eu vou dizer uma coisa, vou dizer quem foi forte para mim no sentido de orientação estética, que acho mais importante. Os escritores foram muito importantes: Mário e Oswald porque eu tive uma espécie de ideário de Brasil utópico ali, que eu me apaixonei. Volta e meia eu volto. Ali tem muita coisa, tem um magma muito interessante de idéias.

Outra pessoa que foi extremamente forte para mim, foi o Pelé. Porque eu nasci na época dele e o movimento dele sempre me encantou. O Pelé me emociona até hoje. Eu o conheci esse ano. Ele é uma das pessoas que mais me emocionam.

Na música, as primeiras impressões de forma foram daquelas pessoas que já falei do Caetano e do Gil. Esta geração foi quem eu acompanhei. Principalmente, o Gil que depois trabalhei com ele. Fiz disco, produzi e toquei. Eu sentia uma música muito pessoal dele e ficava muito apaixonado. João Gilberto foi um marco para mim até hoje. É o cara que mais ouço até hoje. Quando eu não quero ouvir ninguém, eu ouço João Gilberto e se eu quero ouvir todo mundo, eu ouço João Gilberto. Ou quando eu quero ouvir algo muito cheio, eu ouço João Gilberto ou quando quero ouvir algo muito vazio, eu ouço João Gilberto. Ele me deu uma noção de totalidade musical e de educação e de bom gosto. Eu gostaria de falar isso para ele, mas acho que será impossível. Mas é isso.

Eu sempre fui muito ligado na música brasileira tradicional na minha infância. Eu sempre gostei muito do Noel, do Pixinguinha, do João da Baiana, do Donga, Geraldo Pereira e Wilson Batista. Então, falar de influência é meio estranho. Influência de instrumento que eu tive foi o Zeca. Porque foi o primeiro grande músico com quem eu tive aula, estive ao lado. Eu ouvia aquele som e achava tão bonito. Eu admirava a liberdade com que ele tocava e como era aquilo. Eu tive proximidade dele. É um músico que até hoje tenho o prazer de ver, é meu colega, meu irmão. Mais ou menos esse universo. A minha paixão e influência é o Brasil.

VMI - Qual é a formação atual do Paul Brasil?

RS - O Pau Brasil existe como grupo desde 80 e 81. Eu fiquei como a única pessoa que não saiu do grupo. Dessa formação original, nós gravamos um segundo LP chamado “Pindorama”. Mas sem o Izael, e com o Bob Wyatt na bateria. Mas era eu, Nelson, Sion e Paulo Bellinati. Gravamos um terceiro LP, chamado “Cenas Brasileiras”, que era eu, Nelson, Paulo Bellinati e o Nenê na bateria. Depois, o Sion saiu e entrou o Teco Cardoso. Nelson saiu logo depois e entrou o Lelo Nazário. Depois saiu o Paulo e entrou a Marlui Miranda. Na verdade, teve um número de músicos muito grande no grupo e conseguimos uma discografia de oito CDs. Têm vários CDs, como o “Lá vem a Tribo”, por exemplo, sou eu, Bellinati, Nenê, Lelo Nazário e o Teco. Depois o disco “Metrópole Tropical” com a mesma formação. Depois fizemos “Música Viva” que era eu, Zé Eduardo Nazário, Lelo, Marlui Miranda e Teco. Depois fizemos o “Babel” com a mesma formação.

Já vou entrar numa outra coisa, que é a gravadora, que saiu do nome do grupo e eu fiz o selo. Por conta da demanda de trabalho que eu tinha no selo, o grupo passou a ser mais uma atividade dentro do selo. Pois, ficou cada vez mais difícil de tocar. Ficou meio em banho-maria durante algum tempo. Até que no final da década de 90, começamos a refazer o grupo, ou melhor, nós reunimos o grupo antigo para tocar uma vez por ano. Eu, Nelson, Sion, Paulo Bellinati e Bob. Era só uma coisa por ano. Até que no final de 2004 nós retomamos o grupo com uma característica mais séria: eu, o Nelson Ayres, Paulo Bellinati e o Teco Cardoso, mas queríamos achar um baterista novo e com perspectiva de música improvisada como a nossa. Então, nós chamamos o Ricardo Mosca que é o caçula do grupo. Essa é a formação atual que gravou o último CD chamado “ 2005” .

VMI - Quais principais turnês vocês já fizeram?

RS - O Nelson foi trabalhar no então “Nosso Estúdio”, que tinha feito um selo “Som da Gente”. Ele foi fazer a direção artística do selo. Ele gravou lá um disco chamado Mantiqueira, que era meio a base do Pau Brasil: eu, ele, Azael, Sion, Costita, Nico e o Zeca Assumpção. Tinha outros grupos tocando. Apareceu uma oportunidade, eu só não vou me lembrar o ano, eu acho que foi 1982, num festival muito prestigioso na Europa, que é o Festival de Jazz de Paris. O diretor deste festival esteve em São Paulo e quis levar alguns grupos brasileiros para se apresentar lá. Foi a primeira viagem grande internacional que fizemos com o grupo.

Foi assim que começou a carreira do Pau Brasil. Eu não sei dizer quantas turnês nós fizemos. Acho que umas 14 ou 15 internacionais. Nós fomos para o Japão, para a Europa várias vezes, com outras formações e aos Estados Unidos. Gravei na Europa, na Noruega. O que aconteceu é que eu fui me fascinando com o mercado. Eu ia às lojas de disco lá na França e achava um monte de discos que não tinham aqui no Brasil, de músicos sensacionais e super bem-acabados. E quando eu via o setor de música brasileira, eu achava muito defasado, só tinha música comercial ou muito datada. Eu achava que faltava colocar uma música mais interessante.

Primeiro, fui criando um nome, como músico, e depois foi me dando vontade de olhar o Pau Brasil de uma maneira mais ampla. Eu pensei assim: “Eu faço uma música com o grupo, mas tem tanta música no Brasil, de repente eu começo a criar um selo”. Eu comecei a produzir discos e depois criei a gravadora. Assim começou a gravadora Pau Brasil. Muito baseada no mercado internacional. Muitas turnês e o selo se confundem muito nessa hora.

Outro dia, eu estava calculando quantos países eu já havia tocado na Europa. Falta tocar nos países no extinto Leste Europeu. Em alguns, por exemplo, eu nunca fui para a Bulgária, nem para Romênia. Mas já fiz para muitos lugares esquisitos, como a Estônia, Macedônia, todos os países pequenos, como Luxemburgo, os países baixos: Holanda, Bélgica. Todos os países escandinavos, como a Noruega, Finlândia, Dinamarca, Suécia, França, Itália, Espanha e Portugal. Todos. Alemanha eu fui muito, assim como para a Áustria e Suíça. Quer dizer, a Europa é um lugar que eu freqüento muito. São muitas turnês e não sei nem quantos concertos nós já fizemos. Faz um cálculo assim, vamos fazer uma média de 30 ou 40 turnês até hoje com uma média de 25 concertos cada. Eu nem lembro direito. Mais recentemente, nós vamos muito para o Japão. Basicamente, hoje em dia, como músico atuante, eu toco muito mais fora do Brasil do que dentro. A proporção de shows anual que eu tenho fora é muito maior do que dentro. Aqui, no Brasil, eu toco menos, eu produzo mais disco. Sendo que esses discos são financiados por gravadoras de fora do Brasil. O disco que vou gravar agora com a Clara Moreno está sendo concebido por uma gravadora japonesa junto com outra inglesa. Então, o mercado internacional é que financia hoje o que fazemos. Não somos nós que fazemos. É o mercado que acaba financiando a minha vida. Eu tenho muito mais condição para sobreviver fora do Brasil hoje do que dentro, infelizmente.

VMI - Como foi a gravação do seu primeiro CD solo “Mundo”?

RS - Nossa. Isso foi em 1986 ou 85, que eu gravei. Faz 20 anos já. Foi assim: Eu morava sozinho numa casinha ali nas Perdizes. Eu tinha saído de um primeiro casamento e comecei a escrever umas coisas. Comecei a ter vontade de gravar uma coisa que fosse mais minha, que tivesse uma relação pessoal mais com o meu universo interno. Nasceu disso. Eu fiz todas as músicas e letras. A Joyce cantou, veio do Rio para cantar e a Marlui também. Ou seja, são relações antigas. O Nelson toca quase todo o disco, o Lelo toca também. O Sion, Paulo Belinatti e tem uma música do Zeca. Ou seja, o “Mundo” é o resultado desse ambiente que acabei de mencionar para você, desses amigos, dessa afetividade e do meu estado espiritual. Eu tinha vontade de fazer uma coisa interior. Tem uma para o Noel, “No Céu com Noel”. Tem uma música para os filhos do Nelson, chamada “Tina e Diego”. Tem “Poeira Morena”, que eu escrevi a música, mas é uma música do Nelson que a letra foi feita para a ex-companheira dele, a Claudinha. Foi feita para ela em Visconde de Mauá, que era um lugar que íamos muito. Enfim, era o meu universo e eu tive vontade de fazer. Isso foi bacana.

Eu tive vontade de gravar outros discos, mas nunca mais deu tempo. O meu trabalho ficou muito fragmentado. Muita gente grava muita coisa minha, eu tenho muita coisa gravada, como canção e muitas coisas instrumentais. Eu produzo e toco muito. Eu comecei a redigir muita composição para outras pessoas. Eu escrevi coisa para o Gil e para Mônica Salmaso. Acabei gravar um disco infantil inteiro que é meu e do Edgar Poças lá em Belo Horizonte. Com composições minhas. Isso diversificou e não tive vontade também. Acabei não gravando mais e não sei nem por quê.

VMI - Como você começou a produzir trabalhos?

RS - Eu acho que sempre tive uma intuição muito grande. Eu sou muito bom produtor e falo isso na boa. Eu tenho muita boa percepção. Não é a percepção musical, se o acorde é com 5ª aumentada ou diminuta. Não é isso. É isso também, mas não é principal. Quando você vai produzir um disco, é necessário perceber exatamente o que você está fazendo, quem é o artista que está em sua frente. Como você vai criar com ele.

Quando eu criei o selo, eu já tinha muita coisa produzida. Por exemplo, o primeiro disco da Marlui Miranda foi um disco super premiado, que está no selo, “Eu Incluo Todos os Sons”. Ganhou vários prêmios, entre eles o da Academia Alemã de Melhor Disco de Word Music e viajou o mundo inteiro. Esse foi um disco que me ensinou muito. Eu já tinha feito o “Babel” com Marlui, que era disco instrumental. Nós tínhamos gravado na Noruega e que eu produzi. Mas ela quis fazer um disco junto. Ela trouxe um material gigantesco de índio. Eu não sabia o que fazer. Através deste disco, eu comecei a exercer mais conscientemente uma função de percepção a dois. Então, acho que produção, como eu sei que sou bom produtor? É que eu sou bom parceiro.

Eu sempre fui um cara meio tribal, embora eu seja uma pessoa sozinha num certo sentido de ficar o dia todo tocando, escrevendo e fazendo minhas coisas. Todo o meu pensamento é para o coletivo. Num certo sentido, é por isso que o Pau Brasil existe até hoje. O Pau Brasil foi desmantelando numa certa hora. O Nelson foi levar a vida dele, com razão. O Paulo foi ser solista, o Sion maestro, o Azael foi morar nos Estados Unidos. Mas eu sempre tive essa tendência aglutinadora de puxar gente que eu achava que era interessante de co-criar comigo. Essa tendência que tem no Pau Brasil de grupo passou a existir dentro do selo e passou a existir dentro de mim como produtor. A partir disso é que comecei a produzir discos de outras pessoas de um jeito meio pessoal. Aí, eu fiz um monte de disco com muita gente. Bastante coisa de música instrumental, de nova música brasileira que eu me considero meio como co-autor. A gente pegou um trabalho muito germinal, vou dar um exemplo, a Mônica Salmaso. Eu a ouvi pela primeira vez quando ela gravou uma música minha para um disco chamado “Canções de Ninar”, que o Paulo Tatit e a Sandra Paes fizeram pelo selo Palavra Cantada. Foi o primeiro disco deste projeto. Eles pediram uma música, eu e o Edgar Poças fizemos (um grande amigo e foi meu professor fez a letra. Um grande letrista). Chama-se “Soneca”. Eu entreguei a música e eles produziram. Quando ficou pronto, eles me chamaram para ouvir. Quando eu ouvi a voz da Mônica, perguntei quem era. E me falaram que era uma cantora nova de São Paulo, chamada Mônica Salmaso. Acho que ela tinha uns 23 anos e a convidei para gravarmos algo junto. Eu já tinha o selo. Nós não sabíamos o que gravar, então, ficamos um ano ouvindo várias músicas junto, conversando, vendo como as coisas aconteciam. Foi assim que nasceu o primeiro disco dela, chamado Trampolim.

Daí em diante, nasceram outros. Ou seja, todos esses discos com a Marlui, Mônica, Joyce, o Gil, a Mantiqueira, Sérgio Santos, Pau Brasil e Jazz Sinfônica. Todos os discos que eu fiz foram discos de parceria criativa realmente. Embora os discos não sejam meus, eu atuei bastante como criador dentro do contexto da concepção para ver que lado estético que ia e também para que lado como nós trataríamos aquilo de uma maneira musical. Por isso, que eu digo que me fragmentei muito nesse sentido.

Eu acho ótimo.

VMI - Como foi seu trabalho com o Antônio Madureira?

RS - Essa história é boa. Ela começou quando eu terminei o meu colegial. Eu tinha um grupo chamado Sexteto Guaraná. Isso era uma coisa que nunca gravou muito incipiente. Nós tínhamos 16 ou 17 anos e o grupo era: eu, Adriano Busco (percussão com um monte de gente), João Paulo Laranjeira (que hoje mora na Áustria. Ele é músico de Balé), o Nando Leal (pianista, que se afastou da música), Paulo Freire (violeiro, que tocava guitarra na época) e o Antony (saxofonista, que nunca mais vi). O pai do Paulo Freire é o Roberto Freire, terapeuta, e ele tinha muito bons contatos e conhecia muita gente. Nós fomos gravar no Vice-Versa e o Rogério Duprat estava lá. Ele era dono do estúdio. Gravamos uma fita lá, o Rogério adorou, falou que tinha muitos caminhos e nos sugeriu para viajar pelo Brasil.

Esse negócio de viajar pelo Brasil, era algo que estava muito na cabeça do Paulo Freire na época. Ele queria ir para Minas Gerais porque estava com o universo do Guimarães Rosa. Então, nós fomos fazer uma viajem. Tudo maluco, que começava no Recife, ia descendo, pegava o São Francisco. Navegava no Rio São Francisco, descia em Januária, depois ia se enfurnar no Guimarães Rosa. Um roteiro maluco. Então, fomos fazer a viagem. Chegamos a Recife. Nós queríamos saber de música, pois não sabíamos nada de manifestação de música popular e tal. Não sei como, faz muito tempo, uns 30 anos, nós chegamos à casa do Antônio Madureira. Ele já era uma referência, já tinha o Quinteto Armorial e tinha feito alguns livros sobre instrumentos do nordeste. Nós passamos uma tarde com ele. Ele falou pra burro. Falou das manifestações, das festas e dos caboclinhos. Começou a pintar algumas coisas lá para gente. Eu fiquei com aquele negócio na cabeça e o adorei. A viagem prosseguiu. O Paulo foi realmente para o Urucuia e se internou lá. Acho que ele ficou uns dois ou três ou quatro anos. De lá, ele extraiu um grande sugo do que ele faz até hoje. Eu não fui até lá. Quando eu cheguei a Januário, eu resolvi voltar para São Paulo para estudar e tocar. Eu queria tocar. Isso foi antes de começar tudo isso que conversamos até agora.

Anos depois. O Pau Brasil estava tocando na FUNARTE aqui na Barra Funda e era uma programação de duplas. E o Antônio Madureira ia fazer o show junto com a gente. Dividir o show. Aí, ele chegou fez o show sozinho. Só ele de violão solo, eu nunca tinha o visto tocar. Eu só conhecia o trabalho dele com o Quinteto Armorial. Nós tocamos e eu falei com ele que o conhecia. Não sei se ele lembrou ou não. Imediatamente, nós ficamos muito ligados. Ele estava sem lugar para ficar em São Paulo , então ficou em minha casa e morou comigo. Passou um tempo lá. Nós ficamos muito amigos e tivemos muitas conversas. Ele conhece muito de música e cultura popular.

E aí, começou uma história. Disso nasceu o “Romançário”. Tivemos a idéia de fazer um disco de duo, que funcionasse como uma orquestra de violão e contrabaixo. E que conseguíssemos explorar isso. Nós gravamos o disco do convívio que tivemos durante esse período. Depois, ele ficou aqui mais um tempo. Ele se casou, teve um filho ou uma filha. Mas depois ele voltou para Pernambuco. Hoje, nós temos um contato ocasional. Às vezes, ele vem para cá, telefona, nos encontramos e tal. Mas ele mora lá e eu aqui. Mas nasceu disso. Desse amor pela cultura popular e pelas coisas do Brasil. Ele é uma pessoa muito enraizada, conhece muito de música brasileira. É um grande mestre. Tem coisas que nós nem sabemos que existe e ele sabe bem. Eu aprendi muito com ele.

VMI - Nós falamos sobre o selo Pau Brasil em diversos pontos. Mas eu gostaria que você interasse sobre a criação dele e os principais trabalhos lançados.

RS - Olha o selo nasceu assim. Eu comecei a produzir música de outros e foi ficando tudo empilhado na minha mesa. Eu fiz o disco do Pau Brasil, da Marlui e não tinha muito para onde ir. Aí eu concluí que precisava tomar uma atitude e resolvi fazer a gravadora. Então, fiz o selo. E ele andou muito até o ano 1999. Uns sete anos bem. Depois, eu passei a produzir muito mais esporadicamente, embora eu ainda produza.

Os principais trabalhos, eu não sei dizer muito. Os dois discos da Marlui foram trabalhos que adorei. São muito importantes e eu queria que voltasse para o catálogo. Eu agora tenho uma parceria com a gravadora Biscoito Fino para que o meu catálogo seja relançado. O disco do Gil é muito importante para mim, chamado “Sol de Oslo”. Foi um disco que eu imaginei, criei da minha cabeça. E o Gil viajou na história, sem conhecer nada. Foi feito na Noruega. Ficamos cinco dias ensaiando e três dias gravando. O disco é isso: uma criação muito concentrada de trabalho. Os músicos que participaram foram: eu, a Marlui, Gil, Toninho Ferragutti, Trilok Gurtu da Índia e o Bugge Wesseltoft da Noruega. Então, é um disco meio maluco, mas que deu muito resultado. Eu tenho muito amor por ele. Ele reflete tudo isso que estou falando de amor pelo Brasil, e toda essa história através do Gil porque eu sempre fui muito apaixonado pela música dele. Ele é uma pessoa que sempre gostei de ouvir e fiquei muito fascinado. Ele é extramente musical, é uma pessoa com muita facilidade de tocar e de ritmo. Eu adorava essa característica.   Isso está se perdendo na carreira fonográfica dele porque está fazendo disco para grande massa e a música dele entrou nessa. Eu queria fazer um disco com ele que fosse sertanejo, ao mesmo tempo, internacional globalizado. Então, eu gostei muito de ter feito.

VMI - O que você acha da nova geração de músicos?

RS - Eu adoro trabalhar com gente mais jovem do que eu. E sempre procuro. Eu sempre fico muito surpreendido pelos músicos mais novos e tenho grande interesse e respeito pelos músicos mais jovens do que eu. Há uns oito anos atrás, gravamos um disco na Bahia, chamado “Forças d' Alma”, do Tutty Moreno. Se existe uma das influências grandes que tenho na música é do Tutty que é um músico que me ensinou e me ensina muito. Toco há dez anos com ele. A Joyce também é uma grande influência na minha vida. Os dois são casados.

Fomos gravar um disco dele, chamado “Focas d' Alma”, ele chamou o Proveta e um pianista aqui de São Paulo e ele disse que era um menino novo, chamado André Mehmari. O André foi tocar e tive uma agradável surpresa. Tocamos juntos e fizemos muitas músicas bonitas já. Ele é um expoente de uma geração que está aparecendo. Outro é o Diego que tem 25 anos. Eu o vi tocar no Prêmio Visa. Eu era júri do prêmio. Ele estava na final, que o Yamandú ganhou. Eu o vi tocar e achei um fenômeno de harmonia e bom gosto. Fiquei fascinado por ele. Mais e mais, acho que gosto da nova geração.

Pela minha limitação de tempo, eu deixo de ver pessoas que são importantes. Cantores novos, a Céu, por exemplo, que apareceu cantando agora e está todo mundo falando. Uma das primeiras vezes que ela cantou num palco foi comigo. Eu fiz um projeto no Sesc nos 90 anos do Braguinha, ela tinha 14 ou 15. Ela filha do Edgar, que é meu parceiro, e é super talentosa. Vai aparecer também. Eu acho que o músico hoje tem muito mais direito a informação. O meu filho tem 19 anos e já toca, ele vê as coisas. Quando eu tinha a idade dele, era muito mais dificultoso, tudo importado, caro e não tinha vídeos. Hoje, é tudo mais globalizado. Isso torna o músico mais atualizado.

O que acho que todas as pessoas, que às vezes eu fico muito surpreso do ponto de vista positivo, é o amor que as pessoas têm pela música brasileira também, que elas já sabem. Esse disco que eu estou gravando com o Diego, nós tocamos “Morena Boca de Outro”, “Copacabana” (João de Barro), “Vem Morena”, do primeiro disco do Jorge Ben, o Samba Esquema Novo. É um repertório com muita coisa antiga. E o Diego conhece tudo isso e adora. Isso é uma surpresa, está na nossa mão continuar trazendo essa gente para cá. Eu quero cada vez tocar com músicos mais jovens. Eu adoro isso.

VMI - Para você, qual é o futuro da música instrumental no Brasil?

RS - Eu não acho que tenha um futuro diferente do que é hoje. É a realidade. Tem um público cativo para algumas coisas. Eu falei isso de um jeito meio escamoteado, mas vou tentar resumir. O futuro da música instrumental no Brasil ou da música brasileira de uma maneira mais geral. Tem duas coisas que não consigo entender no Brasil: uma é em a relação à música e a outra com relação ao futebol. São nossas duas grandes forças. O futebol brasileiro, fazendo uma comparação um pouco talvez maluca, deixou de ser o futebol brasileiro, ou seja, nós pegamos todos os jogadores dos times e colocamos fora do Brasil. Exportamos a mão-de-obra. No entanto, o futebol brasileiro não passa na Inglaterra, nem no Japão ou nos EUA. Nós não ganhamos dinheiro com o futebol brasileiro. O empresário, o jogador ganha dinheiro lá fora. Alguns poucos. Mas isso não reflete no Brasil. Reflete apenas na pobreza que nós estamos e que vivemos. De certa forma, a música passa pela mesma coisa. Embora nós não tenhamos conquistado o mercado internacional. São poucas as pessoas que têm um espaço amplo no mercado internacional dentro da música brasileira. Dentro do Brasil a dificuldade é muito grande.

Acho que essas são as nossas grandes forças. A grande força está na arte do movimento, está no futebol. E está na arte abstrata da música, que temos a alegria, o ritmo, o diferencial e a improvisação. Eu não sei por parte de quem, política governo ou cultural. É tudo. Temos que criar. Acho que a nossa parte estamos fazendo. A música brasileira faz muita coisa e faz muito disco bom e muita música boa. Mas precisa arrumar um jeito de organizar isso. Não é fácil, mas temos que entender que esse é o nosso bem maior.

O futuro da música instrumental está ligado a essa idéia de possibilidade da gente existir nos mercados mais atuantes e no mercado brasileiro de um jeito mais organizado. Quem e como fazer isso, eu não sei. Mas acho que hoje a situação é um pouco melhor, mas ainda assim ainda é muito devagar. Tocamos muito pouco, perto do que poderíamos fazer. É muito pouco. Nós podemos fazer mais pela gente, nós temos condições. O Brasil tem que olhar para isso e nós temos que olhar para o Brasil.

Muito obrigada Rodolfo!