Zeca Assumpção | Zeca Assumpção |
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Seria impossível descrever ou definir Zeca Assumpção com apenas uma entrevista e muito menos com um sucinto texto introdutório. Quando o nome de Zeca é citado em alguma conversa de músicos, que o conhecem, é unânime a declaração de sua imensa generosidade, que é facilmente percebida ao longo da entrevista. Inclusive, ao final da entrevista, ele agradece a todos os artistas que já trabalham com ele. Talvez, todos aqueles que gostam de música deveriam agradecer ao Zeca pelas suas inúmeras e maravilhosas contribuições à música brasileira. Zeca Assumpção é baixista e já tocou com todos os grandes nomes da música, seja instrumental ou canção. Trabalhou durante muitos anos com Egberto Gismonti e Hermeto Paschoal, além de participar do Grupo Um e tantos outros, que marcaram a história da nossa música. A entrevista foi realizada por e-mail no dia 04 de setembro de 2006 e está na íntegra. Mariana Sayad Entrevista com Zeca Assumpção Por Mariana Sayad Vozes da Música Instrumental - Fale um pouco sobre a sua formação musical. Zeca Assumpção - Creio que formação musical tem começo, mas não tem fim. Tudo foi como para muitos jovens, que começam a tirar alguns acordes no violão. Só passei a levar a música mais a sério com vinte e poucos anos. Antes de ir para os Estados Unidos, eu fazia faculdade de veterinária na USP e ao mesmo tempo tocava em shows de escola, em casa noturna, etc. Foi uma época muito rica em termos de música brasileira, mas eu ainda tinha dúvidas quanto ao que fazer. Passado algum tempo resolvi abandonar a veterinária (no segundo ano) e ir aos EUA onde estudei no Berklee College of Music em Boston. Ali, comecei a estudar música em seus fundamentos básicos e foi muito proveitosa a convivência com os alunos. Passei um total de quatro anos em Boston estudando e tocando em todos lugares possíveis. Não havia muitos brasileiros na cidade nessa época, mas lá já estavam Nelson Ayres, Luiz R. Oliveira, Victor Assis Brasil, Cláudio Roditi e logo chegaram outros como Márcio Montarroyos, Célia Vaz, Cláudio Caribé, Alfredo Cardim, Raulzinho, Ronaldo Alvarenga e depois muitos outros foram chegando. Acho que hoje existem centenas de brasileiros estudando por lá. VMI - Fale sobre suas principais influências. ZA - Muitos músicos me influenciaram, porém, devo destacar alguns baixistas como: Miroslav Vitous, Charlie Haden, Luizão Maia, Ron Carter e Ray Brown. Tive muita influência de outros músicos não baixistas também. Entre outros cito Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti. VMI - Quando começaram seus estudos com o contrabaixo? ZA - Comecei tocando de ouvido e sem estudo formal em 1962. Quando fui aos Estados Unidos comecei a estudar técnica específica, teoria musical e leitura. VMI - Como foi a sua participação no grupo São Paulo Dixeland Band? ZA - Aos 16 anos de idade, meu amigo Nelson Ayres sugeriu que eu aprendesse a tocar contrabaixo e assim completar um conjunto de jazz tradicional. Ambos aceitamos: eu e meu pai, que generosamente comprou um baixo acústico. São Paulo Dixeland Band foi o grupo onde comecei a tocar. Foi um tempo muito divertido e os músicos apesar de amadores tocavam bem. Ali, comecei aprender a ouvir música. VMI - Como foi sua decisão de estudar na Berklee? ZA - Quando a música começou a falar mais alto em meus ouvidos e alma, por volta de 1969. Como já disse antes, Nelson Ayres e outro amigo Luis Roberto Oliveira já estudavam lá em Boston e com a ajuda deles me organizei para a viajem. Ganhei uma bolsa parcial na Faculdade Berklee, onde cursei até o quinto semestre. VMI - Conte-nos um pouco sobre esta experiência. Quais professores mais marcaram a sua estada? ZA - Esse estudo formal foi importantíssimo. Comecei aprender a ler partitura, cifra e a visualizar a tradução do que é abstrato, em símbolos gráficos. Tive muitos bons professores. Para citar alguns: Herb Pomeroy, John Neves, Gary Burton, Ron Maclure e entre outros. VMI - Como foi seu trabalho com Victor Assis Brasil? ZA - Victor é um capítulo à parte. Considero Victor como primeiro grande mestre com quem tive a sorte de tocar. Era um músico intenso, impressionante e um grande improvisador. Tocamos bastante tempo em Boston com um grupo, que se chamava Os Cinco. O grupo era formado por Victor, Cláudio Roditi, Nelson Ayres, eu e Cláudio Caribé. Victor era uma pessoa muito generosa. Em certa ocasião tive que sair de um apartamento alugado e sem ter para onde ir ele ofereceu um lugar para eu ficar por uns tempos até encontrar outro. Foi um período sensacional, em que tocávamos muito. O piano ficava na cozinha e lá passávamos horas tocando. Vitor além do sax, também tocava bem piano. Infelizmente, ele faleceu prematuramente. Foi um grande amigo. VMI - Como foi seu trabalho com o Hermeto? Foi em 1977? ZA - Comecei a tocar com o Hermeto em 1976. Na verdade, foi a continuação de um aprendizado que havia começado nos EUA com Victor e Nelson Ayres. Participei do grupo por aproximadamente quatro anos. Ensaiávamos muito, praticamente todos os dias e tocávamos muito pouco em shows. Durante esse tempo todo, Hermeto não gravou nenhum CD. Havia uma postura política diante das grandes gravadoras e ele se recusava a gravar. As pessoas que iam assistir aos concertos poderiam gravar se quisessem. Os shows eram muito longos, às vezes, duravam três horas ou mais. Foi muita sorte ter podido conviver e aprender com o Campeão (como Hermeto é chamado) por esses anos. VMI - Como foi a formação do Grupo Um? Como estava o cenário da música instrumental neste período? ZA - O cenário da música criativa nesse período era muito fértil. Basta falar em nomes como Victor, Hermeto, Egberto, Nivaldo Ornellas, Marcio Montaroyos etc. O Grupo Um era a “cozinha” (piano, baixo e bateria) do Hermeto. Houve um momento, em que começamos a ensaiar paralelamente ao grupo do Hermeto as composições do pianista Lelo Nazário. Após o primeiro show, que fizemos com esse quarteto (Lelo Nazário, Zé Eduardo Nazário, Carlinhos Gonçalves, eu e mais Mauro Senise como convidado) saímos do grupo do Hermeto para uma dedicação total ao Grupo Um, que na verdade seguia os mesmos moldes do Hermeto, ou seja, muito ensaio e pouco show. O grupo tocava uma música que acredito, muito vanguardista para época. Não era um conjunto de fácil assimilação. Tinha gente que gostava muito e tinha gente que não gostava nem um pouquinho. O ápice da rejeição foi o dia que fomos literalmente expulsos do palco do Festival de Montreux de S. Paulo por uma tropa de choque. O motivo alegado da expulsão foi que passamos do tempo permitido para o show, mas o que aconteceu na verdade é que a música estava um pouco além dos parâmetros aceitos pela direção do festival. Hoje em dia, acho esse fato engraçado, mas na época não foi. Hoje, o LP Marcha Sobre a Cidade virou CD e existe uma moçada, que ainda curte o Grupo Um. VMI - E como foi a gravação do disco Marcha Sobre a Cidade? ZA - Gravamos esse disco em duas ou três sessões em um pequeno estúdio e em apenas três canais. Acho que o quarto estava com defeito. Recentemente foi remasterizado e relançado em CD por Marcelo Spindola Bacha um produtor do Rio de Janeiro, que vem resgatando vários bons trabalhos daquela época. VMI - Como e quando começou seu trabalho com o Egberto Gismonti? ZA - Após muito tempo de Grupo Um o Egberto convidou a mim e ao Zé Eduardo para participarmos do Grupo Academia de Danças. Por volta de 1979. VMI - Quais CDs você gravou? ZA - Zigzag (ECM), Música de Sobrevivência (ECM), Infância (ECM), Sanfona (ECM), Nó Caipira (Carmo-ECM), Em Família (Carmo-ECM), Feixe de Luz (Carmo-ECM) e Sonhos de Castro Alves (Sons da Bahia). VMI - Quais foram as principais turnês que fizeram juntos? ZA - Realmente não saberia dizer quantas turnês fizemos juntos. Foram muitas. A primeira que fiz fora do Brasil (Europa) foi em duo (Egberto violão e piano e eu baixo acústico). Nessa época, viajávamos em uma pequena Van com o Egberto dirigindo e eu tentando decifrar os mapas rodoviários. Foram os primeiros tempos do trabalho do Egberto na Europa. Quem produzia já era o Thomas Stowsand, que se tornou grande empresário dos músicos criativos do mundo todo na Europa. Depois foram inúmeras turnês com diferentes formações. VMI - Como foi a participação no grupo Academia de Dança? ZA - Logo no princípio, depois que Zé Eduardo saiu do grupo, tocamos com Robertinho Silva e Mauro Senise. Devo dizer que o meu trabalho com o Egberto foi o mais extenso em toda a minha carreira. Na verdade, trabalhei com o Egberto por aproximadamente 20 anos. Descontando um pequeno período em que estivemos afastados. Foi a mais profunda experiência musical e o mais rico período de aprendizado em minha carreira. Fora a música, eu tive a oportunidade de conhecer muitos países em vários continentes. É difícil exprimir em palavras a riqueza dessa experiência e desse aprendizado. Só tenho a agradecer muito ao Egberto por esse privilégio. Foi muito bom tocar essa música, para tantas pessoas, em lugares tão diversos e sentir o que a nossa música brasileira pode levar em termos de emoção e alegria. VMI - Quais outras formações vocês participaram juntos? ZA - Academia de Danças, Quarteto com Mauro Senise e Nenê, quarteto com Nando Carneiro e Jaquinho Morelembaum e depois trio sem o Jaquinho. Essas foram as mais duradouras. VMI - Como foi sua participação no quinteto do Radamés Gnatalli? ZA - Fiquei amigo do Radamés através do meu compadre Sergio Saraceni. Nos encontrávamos de vez em quando em algum bar pra tomarmos um chopinho. Com o passar do tempo, ele me convidou para tocar em seu grupo. Toquei com o quinteto original do Radamés, substituindo Vidal. O grupo era: Radamés no piano, Luciano Perrone na bateria, Zé Menezes violão e guitarra e Chiquinho no acordeom. Foi literalmente uma viagem no tempo. Uma experiência inesquecível e de grande prazer em poder conviver com músicos tão sábios e maravilhosos como esses. Radamés é simplesmente genial. VMI - Como começou a fazer trilhas para espetáculos? E para cinema? ZA - Comecei fazendo alguns trabalhos para TV e desenho animado. Depois trabalhei com longa metragem: “Barrela” de Marco A. Cury, “Amazon Encounter” de Neville de Almeida e Dudi Guper, “Matou a Família e Foi ao Cinema” de Neville, “Centro do Rio” de Haroldo Marinho Barbosa e no momento estou criando a trilha de “O Demoninho de Olhos Pretos” também de Haroldo. Foi especialmente importante e enriquecedor minha parceria com a grande artista e também mãe de meus filhos, Lia Rodrigues, coreógrafa para quem criei as trilhas de “Folia” e “Aquilo de que Somos Feitos”. O trabalho da Lia é muito especial. Hoje, ela é reconhecida no exterior como grande coreógrafa e, portanto , tem trabalhado muito fora do Brasil . VMI - Para quais exposições você já fez trilha? ZA - Para a exposição “Caixa de Folia”, comemorativa dos sessenta anos da Missão Folclórica, realizada no Museu da República, concepção de Anabela Paiva e Lia Rodrigues, juntamente com Gisela Magalhães no Rio de Janeiro. Como desdobramento desse projeto, a exposição “Coração dos outros - Saravá, Mário de Andrade!” realizada no SESC Belenzinho em São Paulo. As duas mostras têm trilhas diferentes para diferentes salas da exposição. As trilhas são montagens de músicas originais escolhidas e copiadas no arquivo da discoteca do Centro Cultural São Paulo. Esse arquivo foi recolhido pela Missão Folclórica sob direção pessoal de Mário de Andrade. As músicas escolhidas para as exposições foram intercaladas com músicas compostas por mim para o evento. Também criei a trilha sonora para a exposição “Expedição Animada à Terra Pappagalli” sob direção de Magda Modesto realizada no 17º Festival Internacional de Teatro de Marionetas de Tolosa (Espanha). VMI - Como foi a gravação do CD “Catavento”? Quem participou? ZA - Catavento é o CD que gravei em parceria com Nando Carneiro. Foi gravado ao vivo na Sala do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) no Rio de Janeiro. Foi lançado na Austrália, Europa e no Brasil faz parte da coleção de produções da Tom Brasil. Nando e eu fizemos uma pequena turnê em duo tocando o repertório dessa gravação. VMI - Como foi a criação do Luxo Artesanal Quarteto? ZA - Luxo Artesanal é um grupo criado pelo Nando Carneiro e tocam Nando, David Ganc, Mingo Araújo e eu. VMI - Quais as diferenças na elaboração de um arranjo para a música instrumental e para canção? ZA - Basicamente não há diferença. O que é diferente na verdade é o espaço dado ao instrumentista criativo, o que geralmente não acontece na música cantada. Tenho feito nos últimos anos um trabalho constante como um dos arranjadores dos Flautistas da Proarte do Rio. É um trabalho da maior importância, dirigido por Tina Pereira e Raimundo Nicioli, Claudia Ernest Dias, pois ali estão se formando muitos músicos de talento. A orquestra tem demonstrado constante progresso e desenvolvimento em sua capacidade de execução. VMI - Como você começou a compor? ZA - Comecei compondo algumas melodias com a ajuda de violão. Depois passei a usar o piano e também o baixo. VMI - Como funciona seu processo criativo? ZA - Acho difícil definir o processo de criação. Com certeza deve haver muita concentração e muito tempo mergulhado no trabalho. Existe um processo criativo quando se escreve uma música e para mim raramente as coisas acontecem com rapidez. Existe outro processo diferente quando se está tocando o instrumento, neste caso, obviamente, não há muito tempo para elaborar pensamento. É diferente, mas ambos processos criativos. VMI - Como você enxerga o cenário da música instrumental atual? ZA - O cenário e o mercado para a música instrumental não podem ser comparados, por exemplo, com o mercado da música pop, MPB ou algum segmento da música de consumo rápido. É um mercado bastante pequeno proporcionalmente e, portanto, às vezes, as coisas se tornam bem difíceis. Tenho trabalhado relativamente bem em São Paulo com excelentes músicos, como Nelson Ayres, Benjamin Taubkin, Heloisa Fernandes, Mani Padme Trio e ainda outros, onde hoje me parece que há mais movimento em termos dessa música. Em São Paulo, existe uma forte presença do SESC que faz uma diferença, pois investe muito e constantemente em vários tipos de expressão artística, inclusive a música instrumental. VMI - O que você acha da nova geração de músicos? ZA - Espetacular. A moçada aprende com uma velocidade muito superior à nossa geração. Talentos maravilhosos. Hoje em dia, existem muito mais músicos e, conseqüentemente, muitos exímios e brilhantes jovens instrumentistas, o que não existia em tal quantidade nos anos 60 ou 70, por exemplo. VMI - Na sua opinião, qual é o futuro da música instrumental? ZA – Hoje, a música instrumental criativa (como nós a apelidamos) já tem um alcance maior e pode participar, por exemplo, de salas antes exclusivas da música de concerto. Talvez, isso seja o princípio do fim de uma fronteira, antes imposta ao músico “popular”. Toda música, na verdade, é instrumental com exceção do canto à capela (só voz). O que importa é a qualidade da música. Gostaria de terminar esse depoimento para dizer, que me sinto um constante aprendiz e um aprendiz de muita sorte por ter tido a honra de trabalhar com tantos músicos, cantores e artistas tão incríveis. Quero agradecer muito por me autorizarem a ser aprendiz em tão fina companhia. Um obrigado especial à Lia Rodrigues, que me guiou e influenciou em muitos momentos de dúvida em minha vida. Muitíssimo obrigado a Nelson Ayres, Victor Assis Brasil, Hermeto Pascoal, Lelo Nazário, obrigado especial a Egberto Gismonti, Radamés Gnatalli, obrigado Sergio Saraceni e ao Chico Buarque, a Elis Regina, ao Wilson das Neves, ao Mestre Marçal, ao Caetano Veloso. Ao Edgard Poças que me ensinou muita música brasileira, ao Roberto Sion, Rodolfo Stroeter, meu primo e grande baixista Nico Assumpção, Mônica Salmaso e a inúmeros outros grandes artistas (aqui já me desculpo pelos esquecimentos) que deram, dão e darão mais sentido à minha vida. Obrigada Zeca! |